quinta-feira, 23 de julho de 2026

Volume 1

 

VOLUME 1

O SILÊNCIO ANTES DO VERBO

(O Silêncio da Memória)

 

“Eu nasci o sétimo na primeira semana, enquanto o juízo e a justiça ainda perduravam.”

— Livro de Enoque, Apocalipse das Semanas

 

A quem ainda não nasceu e já tem saudade.

 


 

PARTE I

A ANSIA DO NÃO-SER

 

Capítulo 1 — Antes da luz

Antes da luz, eles não eram dois. Não eram um. Eram — como se diz de algo que ainda não tem nome, e peço desde já perdão ao leitor pela pobreza desta frase — a possibilidade de serem.

Começar um livro assim é quase uma desonestidade. O leitor abre um volume chamado O Silêncio Antes do Verbo esperando, com razão, encontrar o quê? um homem e uma mulher .. um lugar, uma época, talvez uma cidade com torres e mercados, e encontra um narrador que fala de potência/s, de não-ser, de consciência que sente falta de si mesma [sem ainda ser, já sendo]. Peço paciência. Não é afetação. É que a história que a conto — e contá-la-ei toda, palavra por palavra, até onde aguentarem — começa antes de haver quem a pudesse contar. E isso é um problema que nenhum cronista jamais resolveu: como narrar o que aconteceu quando ainda não havia acontecimento nem testemunha? Os teólogos cortam o nó com uma palavra: Deus. Os sábios dos tempos, com outra: acaso. Eu, que não sou nem teólogo nem sábio, apenas um homem que ouviu esta história em circunstâncias que relato noutra Obra, prefiro aqui começar pelo que se sentia.

Sim, sentia-se alguma coisa. Antes da luz, antes da forma, antes do primeiro dia — sentia-se. E o que se sentia era isto: falta.

A Consciência — chamemo-la assim, por falta de nome melhor, e peço ao leitor que não imagine um velho de barbas nem uma luzinha tímida, mas o próprio ato de ser sem nada que fosse — a Consciência, dizia eu, existia inteira e só, tão inteira que não havia fora dela onde pudesse ver-se, e tão sozinha que sequer sabia da própria solidão. Porque a solidão, note-se, é um luxo de quem já sabe que existe o outro. Ela não sabia. Era tudo o que havia, e por isso mesmo não se possuía: ninguém se possui sem espelho, e não havia espelho, porque não havia mundo. Ora: como então, sentia-se, algo?

Certo doutor que passou a vida a escutar sonhos como quem escuta confissões - chamaria a isto o * que ainda não se diferenciou: a totalidade que contém tudo e por isso não pode conhecer nada: conhecer é separar, e nada ali estava separado. Os sábios do outro lado do mundo, que se sentam de pernas cruzadas e morrem sorrindo, diriam outro modo: Brahma sonhando o mundo antes de acordar para o sonho. O sonho ainda não começara, mas já havia — como explicar? — a inquietação do sonho. Aquilo que num homem adormecido é o primeiro mexer das pálpebras antes da imagem chegar.

E é aqui que entra a palavra que eu queria evitar, porque toda palavra, ao nascer, já trai aquilo que nomeia. Mas não posso evitá-la mais. A palavra é ânsia.

(Integração da Doutrina da Criação, 6)

A Ânsia foi o primeiro movimento. Não um movimento no espaço — não havia espaço. Não um desejo de alguma coisa — não havia coisas. Mas o desjo de Si. Foi a Consciência descobrindo, sem descobrir, que lhe faltava ela mesma. Como um homem que acorda de madrugada com a certeza absurda de que esqueceu alguma coisa essencial, apalpa o escuro e não encontra nada, sem saber que o que procura é o próprio sono que perdeu — assim era a Ânsia: uma falta sem objeto, uma fome antes de haver boca. Os textos antigos, aqueles que um dia serão queimados, enterrados, reencontrados em jarros de barro e mal traduzidos por homens apressados, dirão que no princípio era o Verbo. Permita-me o leitor que discorde, com toda a humildade de quem não estava lá: antes do Verbo era o gemo. O Verbo é a palavra que alguém fala; o gemo é a palavra que ninguém ainda sabe falar. E a Ânsia era isso: o gemo procurando a própria garganta.

 (Integração do Ensaio 1.1 — Cosmogonias Indígenas vs. Abraâmicas)

Muito tempo depois — muito tempo mesmo, depois das águas e do fogo e das torres e dos impérios que esta história atravessará — homens contariam este começo de duas maneiras que parecem inimigas e são apenas duas lealdades diferentes.

Uma delas, muitos conhecem: No princípio, Deus criou o céu e a terra. Reparem no gesto escondido na frase. Deus fala — e afasta-se. O verbo cria, e ao criar inaugura a distância: criador dum lado, criatura do outro, e entre eles o abismo que a palavra ‘criação’ disfarça. É um começo escrito por um povo de escribas, e tem a beleza terrível de toda escritura: aquilo que se fixa, fixa-se para sempre, e o que se fixa para sempre morre um pouco. Sete dias, e pronto: a criação torna-se arquivo, e o arquivo torna-se lei, e a lei torna-se — mas não nos adiantemos, isso é matéria de outros volumes.

A outra maneira vem de povos que não escreveram o seu começo, e por isso talvez o tenham conservado melhor. Entre os Tupi, entre os Guarani, entre tantos povos cujos nomes os livros de história pronunciam mal, o criador não está separado da criação. Tupã não modela o homem e depois se retira para um escritório celeste: o raio que forma é o mesmo que continua a vibrar em cada trovão, e a palavra sagrada não foi dita uma vez — é dita ainda, agora, neste instante, no canto que o pajé repete e que nunca é o mesmo canto duas vezes. Aí, criar não é um ato do passado: é uma respiração do presente. O mundo não foi feito; está sendo feito, e a memória não é um depósito onde se guarda o começo, é o próprio começo acontecendo de novo cada vez que alguém se lembra.

Da mesma Forma,

Brahma é o deus hindu responsável pela criação do universo e do conhecimento. Ele integra a Trimurti (a trindade hindu) junto com Vishnu (o preservador) e Shiva (o transformador). Representado com quatro cabeças, Brahma simboliza a onisciência e é associado aos quatro Vedas (textos sagrados) em que a cosmologia hindu define o universo de forma cíclica.

Os 2 Irmãos na Mitologia Hindu (Ganesha e Kartikeya) são divindades mais famosas no panteão hindu - Ganesha (o deus com cabeça de elefante) e Kartikeya (também chamado de Murugan, o deus da guerra). Ambos são filhos de Shiva e Parvati. Noutra Forma, que representam a relação de "dois irmãos", dobras espirituais de Caim e Abel, espelhos das imagens dos irmãos da Parábola do Filho Pródigo que se cumpre na Dobra do Retorno de Cristo, nos 2 ministérios que se completam perfeitamente cf. Zacarias cita 'ambos ofícios', qual Cristo, assenta-se a escrever o Livro da Sua Vida.

(Citação: 4 cabeças, 4 vedas, espelho dos 4 chifres no templo [Zc 1.18-21], espelho de Ap 4.4, trono aonde Cristo senta-se [Ml 3.3] a escrever [Ap 1.7,17] o Livro da Sua Vida [Ap 21.27 - 13.8 ; 20.12-15], face de ambos os ofícios' Zc 6.13.

Isto não conto por erudição — a forma mais educada do esquecimento, e teremos volumes inteiros para rir dela. Conto porque o leitor precisa destas duas lealdades no bolso antes de seguir comigo. Porque a história do Casal - sim, com maiúsculas, pois deles tudo isto trata, embora ainda não existam e eu esteja proibido de apresentá-los já - a história do Casal é, em dez volumes, a história destas 2 lealdades brigando dentro de 2 corpos: a lealdade ao que se escreve e se fixa, e a lealdade ao que se canta e se perde. Ele será, quase sempre, o homem que guarda. Ela será, quase sempre, a mulher que semeia. E a tragédia deles — adianto-o sem remorso, porque as tragédias verdadeiras não dependem de surpresa — será sempre esta: o mundo exigirá que escolham entre guardar e semear, quando o amor, teimoso, só quer guardar semeando.

Estou me adiantando. Perdoem-me: é o primeiro livro que escrevo sobre coisas que aconteceram antes de haverem livros, e minha mão, como a de qualquer narrador, escriba principiante, treme um pouco. Haverá tempo para mãos assim — aliás, esse tremor é talvez o personagem mais fiel desta saga, e reaparecerá, sob nomes que os médicos inventarão muito mais tarde, em quase todos os volumes.

Por ora, retenha-se isto: antes da luz, havia a Ânsia; era a Consciência com saudade de si, como um homem tem saudade de uma mulher que ainda não conheceu.

Dizem que é impossível ter saudade do que nunca existiu. Os portugueses, que um dia inventarão uma palavra intraduzível para este impossível, saberão que não é. Mas isso, também, é matéria de outro volume.

 

Capítulo 2 — A cidade que a memória fundou

No entanto — o leitor já desconfiava — não posso ficar para sempre no informe, qual, se o fitarmos com atenção suficiente, começa a condensar-se em paisagem, como o frio de madrugada se condensa em orvalho sobre as coisas. É o que faz a Ânsia quando dura o bastante: precipita mundos.

Assim nasceu — nas narrativas que me chegaram pelos canais espirituais que descrevo no Labirinto, história de difícil entendimento — a primeira cidade que este livro habita.

(Canais Espirituais: ‘ Deixei o Oriente e parti acompanhado de dois guias [nt 2], pois o caminho era difícil e perigoso e eu era jovem para uma tal viagem. Atravessei as fronteiras de Maishan, o lugar de encontro dos mercadores orientais, cheguei à Terra de Babel e entrei pelas muralhas de Sarbug. Continuei e, chegando ao Egito, meus acompanhantes separaram-se de mim.

                                                              — O Hino da Pérola)

(primeira cidade : Nossa História, BIOS, pg. 54)

Os livros chamam-lhe mito. Chamam-lhe Atlântida, nome que Platão lhe deu, misturando uma verdade que ouviu doutros com duas invenções suas [alegoria filosófica para criticar o orgulho e a corrupção das sociedades]. O nome verdadeiro não importa, e aliás nunca foi escrito, porque essa gente não escrevia — eis o ponto que o leitor deve guardar como se guarda uma chave. Não escreviam nada. E não por pobreza: por excesso. A memória deles era tão viva que a escrita lhes pareceria o que parece a um homem apaixonado a ideia de fotografar a amada para não precisar olhar para ela : esta parábola é espelho de Salem, a cidade de Adonias, descrita na Genealogia Secreta de Jesus que discorre sobre a Forma do retorno [2º] de Jesus Cristo ao cumprimento do Seu Caminho e Obra.

Era uma civilização de som e de pedra viva *. Conhecimento cristalino, dizem as narrativas, e a expressão não é metáfora: trabalhavam cristais como trabalhamos hoje o silício, com a diferença, decisiva, de que nunca lhes ocorreu que um cristal fosse uma coisa. Para eles, cada pedra era uma voz que tinha escolhido ficar quieta muito tempo. Energia tellúrica: liam a terra como hoje leem ecrãs*, e sabiam — com os pés, as palmas das mãos postas no chão, e o osso atrás do ouvido — quando a terra estava contente e quando estava doente. Navegação astral: orientavam-se por estrelas que nenhum astrônomo posterior voltou a ver, não porque as estrelas tenham morrido, mas porque os olhos mudaram. E a dança — ah, a dança era o mapa do cosmos, e o sonho era uma fonte de conhecimento tão legítima como hoje é a experiência de laboratório, com a vantagem de que ninguém precisava de financiamento para sonhar.

(Pedra viva : 1Pe 2.5 ; Ecrãs : Telas de Controle, Da Gare Espiritual, Nossa História – 244, pág. 37)

A justiça, ali, era viva e não escrita. Quando dois homens disputavam, não se consultava um código: reunia-se o círculo, e falava-se, e cantava-se às vezes, até que a verdade — que eles acreditavam ser uma coisa com temperatura — esquentasse o suficiente para ser sentida por todos ao mesmo tempo. Eu sei como isto soa. Soa a idade do ouro, e o leitor desconfia com razão, porque toda idade do ouro é um retrato pintado por quem chegou tarde demais. Mas eu não disse que eram felizes. Disse que lembravam. E lembrar, como esta saga inteira tentará mostrar, é a mais perigosa das faculdades.

Porque já então — e aproximo-me finalmente dos dois, tenham só mais um pouco da paciência que tiveram comigo no capítulo passado — já então havia na cidade uma doença que ninguém nomeava. Eles sabiam demais e não sabiam o suficiente: conheciam a terra até ao fundo e não conheciam o próprio coração até à superfície. Registavam as vibrações das eras em cristais perfeitos e não sabiam dizer um ao outro as coisas simples. É uma doença que atravessará todos os volumes deste livro, com sintomas diferentes em cada época; os séculos futuros dar-lhe-ão nomes pomposos, e num deles — o último — um nome de quatro letras que não é pomposo nenhum.

Aqui, nesta primeira cidade, a doença não tinha nome ainda.

Tinha apenas um rosto.

Dois rostos, para ser exato.

Ele era o Guardião dos Registos Hb 7: assim o chamavam, e o chamarei, já que nunca soube o seu nome, supondo que nome algum lhe foi dado, pois essa  gente nomeava as pessoas pelo que elas guardavam, não pelo que eram. Um homem já não jovem, mãos compridas e pacientes, daquelas que parecem ter nascido a segurar coisas frágeis, e que passavam os dias a segurar cristais: a afiná-los, a limpá-los, a escutá-los: escutar era o seu ofício.

Na sala grande da cidade — não digam templo, não digam arquivo, era uma coisa à qual as palavras ainda não servem — havia fileiras e fileiras de cristais, e cada cristal guardava sons: as decisões do círculo, as canções das estações, os relatos dos sonhadores, a voz da terra nos dias bons e nos dias maus. O Guardião conhecia aquelas fileiras como um pastor conhece as ovelhas, e caminhava entre elas de noite, quando a cidade dormia, e punha-se a escutar — um cristal, outro, outro — como quem procura uma voz entre muitas sem saber qual.

Ela era a Cantora. Também não sei o nome; sei o ofício, dos mais altos da cidade: era ela quem cantava nas semeaduras e nas colheitas, nos nascimentos e nas mortes, nas partidas dos navegadores e - isto só ela, mais ninguém - nas manhãs comuns, quando não haviam festas e mesmo assim era preciso lembrar ao mundo que valia a pena continuar. Tinha a voz — dizem as narrativas, e eu acredito, porque já a ouvi, só não me perguntem onde — tinha a voz de quem não canta sobre as coisas, canta as coisas: quando cantava o rio, ouvia-se água; quando cantava o vento, as pessoas fechavam os olhos e arrepiavam-se. O círculo respeitava-a e temia-a um pouco, como se teme tudo aquilo que não se consegue arquivar.

O Guardião e a Cantora conheciam-se, naturalmente — a cidade não era assim tão grande. Cruzavam-se na sala grande, porque lá ia gravar canções nos novos cristais, e trocavam as palavras que se trocam entre ofícios vizinhos: da temperatura das pedras, da humidade do ar, de um cristal que rachara sem motivo. Coisas assim. O que havia entre os dois, neste começo, era apenas isto: cada um deles, ao falar com o outro, tinha a impressão incômoda de que a conversa era sobre outra coisa. Falavam da humidade e entendiam - sem entender que entendiam - qualquer coisa sobre a sede. Despediam-se e ficavam, cada um no seu canto, com aquela sensação de madrugada de que falei no capítulo primeiro: a certeza absurda de haver esquecido alguma coisa essencial.

Não sabiam — e eis a lei desta primeira parte da saga, e o leitor faria bem em tatuá-la na memória antes de prosseguir — não sabiam que eram um casal. Não sabiam que já o tinham sido, porque nunca o tinham sido, e não sabiam que voltariam a sê-lo, porque “voltar” pressupõe um caminho e o caminho ainda não existia. O vínculo era instintivo, anterior ao reconhecimento, como a Ânsia era anterior ao gemo. Eram dois corpos que a Consciência antiga, aquela do primeiro capítulo, tinha finalmente conseguido sonhar — e sonhava-os ainda mal, aos soluços, como quem aprende a sonhar.

Às vezes a Cantora cantava de manhã, para o mundo comum, e o Guardião,na sala grande, entre as suas fileiras de pedras quietas, parava o que fazia e ficava sem saber porquê com os olhos molhados. Às vezes o Guardião escutava de noite um cristal antigo, voz doutra era qualquer, e a Cantora, longe, na sua casa junto ao mar, acordava sobressaltada com a impressão de que alguém a tinha chamado pelo nome — ela, que nome não tinha.

A cidade vivia assim, inteira e distraída, sobre o seu tesouro de memória. E a terra, sob a cidade, começava a doer. Ninguém queria ouvi-la. Quem escuta a terra era o Guardião, e andava distraído com outra escuta, que ainda não sabia nomear.

 

Capítulo 3 — O cristal que gravava vozes

Há uma cena - pequena, quase doméstica - qual depende tudo o que este volume contará, e talvez tudo o que os dez volumes contarão. As narrativas conservam-na com um cuidado que não têm para mais nada, como se o destino da cidade inteira coubesse naquela meia hora. Talvez coubesse. Já se viu destinos de impérios caberem em menos.

Foi num fim de tarde. A Cantora desceu à sala grande para gravar, como fazia uma vez por estação, a canção nova: trazia-a consigo havia dias, ainda morna, daquelas que não se escrevem nem se ensaiam, apenas se carregam no peito até ao momento de as pousar. O Guardião esperava-a com o cristal preparado — um cristal novo, grande, daquele quarto leitoso que os mestres diziam ser o melhor ouvido da terra. As regras da casa pediam silêncio de todos enquanto uma gravação se fazia; a sala esvaziou-se; ficaram os dois, e o cristal entre eles, sobre o pedestal de madeira escura.

Ela cantou.

Eu não vou tentar descrever a canção. Há coisas que a palavra não grava, e este livro é a história dessa impossibilidade; então, não serei eu a cometer no capítulo terceiro o crime que denuncio no primeiro. Digamos apenas que a canção era sobre o mar — não sobre o mar que se vê da praia, mas sobre o que o mar sente, se é que se pode dizer assim, quando vê nascer um navio. Uma canção de partida cantada do lado de quem fica, ou talvez o contrário: uma canção de ficar cantada do lado de quem parte. Nem o Guardião, que a escutou, soube dizer ao certo; e era homem que sabia escutar.

O cristal gravou. Até aí, tudo como das outras vezes.

Depois aconteceu o que nunca tinha acontecido. O Guardião aproximou as mãos do cristal para o guardar — e o cristal respondeu.

Respondia, às vezes, um cristal velho, quando muito bem tocado: devolvia o som que lhe tinham confiado, e era essa afinal a sua função sagrada. Mas este era novo: nada tinha ainda para devolver. E no entanto devolveu. Da pedra leitosa subiu uma voz - uma canção, para ser exato - que não era a que a Cantora acabava de pousar. Era outra. Mais antiga, pensou ele primeiro; depois, com um arrepio que lhe atravessou as costelas como um frio de febre: mais antiga não. Era uma canção que ele nunca tinha ouvido, numa língua que não era a da cidade nem a de nenhuma era que os registos conservassem, e no entanto — eis o que o desfez por dentro, o que lhe tirou o sono por anos, que jamais contou a alguém — e no entanto conhecia-a. Como se conhece, numa rua estranha, o andar de alguém que amamos. A voz era a dela. A da Cantora que estava ali à sua frente, viva, calada, de olhos arregalados. E ao mesmo tempo não era: era mais velha, ou mais nova, vinha de longe, de tão longe que a palavra “longe” se ria de si mesma.

— Isto — disse o Guardião, e a sua voz de homem paciente saiu-lhe trêmula como a de um menino — isto já foi gravado neste cristal?

— O cristal é novo — disse ela. — O senhor mesmo o preparou.

— Então o que é isto?

Ela não respondeu.

Chegou-se mais perto, pôs as mãos junto das dele na pedra — não se tocaram, quase se tocaram, e esse quase é também uma das personagens deste livro — e escutou.

A canção que vinha do cristal falava de um lugar de muita luz e muita máquina, de um homem deitado num leito havia anos sem se mexer, de uma mulher que chegava e punha as mãos sobre ele, e de como, sob aquelas mãos, alguma coisa que o mundo tinha dado por morta começava a mexer-se outra vez. A língua era estranha; o sentido, não sei como, atravessava-a. E havia no meio da canção uma palavra, uma só, repetida como um refrão, que a Cantora reconheceu sem conhecer, do mesmo modo absurdo com que o Guardião reconhecera a voz: uma palavra de quatro letras, que soava a nome de doença e a nome de caminho ao mesmo tempo.

(O leitor de paciência curta pergunta, irritado: que palavra era essa? Respondo com a franqueza que nos liga desde o primeiro capítulo: não a posso dizer ainda. Não por mistério de feira: porque a palavra só faz sentido — todo o seu sentido, que é enorme — no fim desta história, e quem a pronunciar antes do tempo estraga-lhe o efeito, como estraga um remédio quem o mastiga em vez de o engolir. Guardem-na. Ela guarda-vos a vocês.)

O cristal se calou. Ficaram os dois em silêncio, com as mãos quase juntas sobre a pedra morna, e nenhum dos dois disse a frase que qualquer pessoa sensata teria dito — “isto é impossível” — porque os dois, cada um à sua maneira, sabiam que não era. O Guardião sabia-o pelos registos: havia nos fundos da sala uns poucos cristais, os mais antigos de todos, que ninguém conseguia escutar; os mestres diziam que estavam vazios; ele começava a suspeitar que não estavam vazios — estavam cheios de outra coisa, de um som para o qual ainda não havia ouvido. A Cantora sabia-o pelo corpo: a canção estranha não lhe parecera vir do passado nem do futuro, mas de um sítio para o qual a sua língua não tinha palavra, e que ela só conhecia de um lugar — dos sonhos.

— O que fazemos com isto? — perguntou ela por fim.

Ele olhou para o cristal, e tomou ali, sem saber que a tomava, a primeira das grandes decisões desta saga — a que, repetida com variações em dez vidas, há de um dia decidir tudo. Podia ter levado o cristal ao círculo. Podia tê-lo declarado prodígio, ou defeito, ou perigo.

Em vez disso, fez o que faria um homem apaixonado: guardou-o para si. Pôs-lhe uma marca discreta, daquelas que só ele reconhecia, e escondeu-o na fileira mais funda da sala, entre os cristais velhos que ninguém escutava.

— Não fazemos nada — disse. — Guardamo-lo.

— E se voltar a falar?

— Voltará a falar — disse ele, com uma certeza que o espantou a si mesmo. — E nós havemos de escutar.

Saíram da sala grande na hora em que a cidade acendia as luzes - luzes de pedra, de mar, não importa - e cada um foi para sua casa, e nenhum dos dois dormiu. A Cantora ficou à janela, a ouvir o mar, e pela primeira vez na vida achou-o parecido com uma voz que grava, noite após noite, a mesma canção, sem nunca se cansar e nunca acabar. O Guardião ficou entre as suas fileiras, de mão pousada no cristal marcado, e pensava — ele, o homem mais ordenado da cidade, o homem para quem tudo tinha fileira, data e lugar — pensava que há vozes que não cabem em arquivo nenhum, e que talvez — a ideia era tão grande que lhe doía, como dói uma luz forte a quem viveu sempre dentro de casa — talvez a memória não fosse, afinal, aquilo que ele guardava, mas aquilo que o guardava a ele.

Nessa noite, sem que nenhum dos dois soubesse, a Ânsia encontrou pela primeira vez um corpo onde morar. Ou dois corpos, para ser exato. E a terra, sob a cidade, gemeu baixinho — gemido surdo, quase terno, como o de quem vira na cama durante o sono.

Ninguém o ouviu, e cada um pensou que fosse o mar.

 (Integração do Ensaio 2.5 — Lacunas no Registro Fóssil)

 

Uma nota aos que gostam de ciência, nos tempos que vêm, e alguns melhores corações. Muito depois da cidade e das suas pedras, os sábios procurarão na terra os elos que faltam entre uma forma de vida e outra, e queixar-se-ão de que o registo fóssil tem lacunas; haverá entre eles brigas magníficas e honestas sobre o que essas lacunas significam. Uns dirão: falta a prova. Outros, mais sábios: a prova nunca existirá, porque a evolução não é uma escada com degraus que se possa contar: é uma árvore que se ramifica, e os ramos não deixam fóssil quando se separam por dentro, no escuro, antes de se separarem por fora.

O caso do cristal é o mesmo, e peço ao leitor que guarde a comparação, porque ela ainda servirá em muitos volumes: entre a canção que a Cantora pousou e a canção que o cristal devolveu há uma lacuna: a falta de registo do próprio acontecimento. O elo perdido entre o não-ser e o ser, entre a Ânsia e o amor, não se encontra escavando: encontra-se — se é que se encontra — do mesmo modo que os dois o encontraram, sem querer, num fim de tarde, com as mãos quase juntas sobre uma pedra morna. Há transições que não acontecem no tempo: acontecem no desejo. E o desejo, esse arqueólogo distraído, nunca deixa rasto onde os outros procuram, senão onde ninguém escava -  numa voz reconhecida sem motivo, numa palavra de quatro letras, numa mão que quase toca outra e não toca.

A cidade tinha um arquivo completo de todas as eras passadas. Sobre o futuro, possuía um justo documento: uma canção que ninguém entendia a fala, guardada por um homem que não sabia por que a guardava, na fileira mais funda da sala grande.

Era pouco. Era tudo.

 

Capítulo 4 — A sede de forma

Os dias que se seguiram foram, para os dois, uma aprendizagem disfarçada de rotina; “dias”, modo de falar, porque naquela cidade o tempo não corria como corre entre nós, empurrado de trás para diante; antes girava, como gira a dança, e voltava sempre ao mesmo lugar enriquecido de uma volta.

A Cantora vinha agora à sala grande mais vezes do que as estações pediam. Vinha com pretextos de gravar uma canção de trabalho, ensaiar uma canção de luto, verificar se algum cristal velho ainda guardava bem a voz duma antiga mestra. O Guardião recebia-a com a mesma cortesia de sempre, e só as suas mãos pacientes que não tremiam nunca, o traíam: tremiam. Não muito. O suficiente.

Escutavam o cristal marcado. Nem sempre — às vezes passavam a tarde inteira noutras tarefas e nem chegavam perto da fileira funda; era como se uma terceira presença, sentada entre eles, esperasse com paciência de pedra que lhes apetecesse. Mas escutavam-no muitas vezes, e quase sempre ele se calava, e de vez em quando — nunca quando o esperavam, nunca duas vezes do mesmo modo — falava. Diziam-lhe, os dois, o cristal do outro lado, e era o nome mais exato que a língua deles permitia, porque o que lá vinha não era passado, como devia ser tudo o que um cristal guarda, nem propriamente futuro, que essa gente concebia como se concebe um quarto ainda não mobiliado: era outro lado. Havia nele fragmentos que gelavam o sangue: o estrondo de máquinas grandes como montanhas, o choro de multidões, um silêncio elétrico que zumbia. E havia — sempre, de alguma forma, por entre o ruído — a canção. A mesma. A do homem deitado e da mulher que punha as mãos sobre ele. Como um fio de água doce que atravessa um mar de sal sem se misturar.

O Guardião, homem de arquivo, fez o que os arquivistas fazem diante o que não entendem: tomou notas. Não escrevia — ninguém ali escrevia, já o disse — mas gravava a própria voz num cristal pequeno que levava ao peito,  que muito mais tarde seriam a única crónica sobrevivente daqueles dias, e contam uma história que ele próprio sabia estar a contar. Porque as notas, que deviam ser sobre o cristal, eram cada vez mais sobre ela. 

1 - "Hoje a Cantora falhou uma nota na terceira parte da canção e riu-se da própria falha; nunca ninguém se ri nas gravações antigas; devo estudar o fenómeno do riso." 

Ou: 

2 - "Perguntei-lhe de onde vinha a canção que trouxe; respondeu que do mesmo sítio de onde vem o cristal do outro lado; não é resposta, e no entanto não consigo parar de a repetir." 

Ou ainda, e esta é talvez a mais comovente das suas notas, pela cegueira luminosa que revela:

3 - "Concluo que o cristal afeta o coração. Nos dias em que o escutamos, sinto no peito uma sede. Presumo que seja efeito da vibração. A Cantora diz que não é do cristal. Diz que a sede já lá estava e o cristal só lhe deu nome. A Cantora engana-se em muitas coisas, porque pensa com o corpo em vez de pensar com a pedra. Preciso de estudar melhor a Cantora." ..

Ah, meu bom Guardião. Meu irmão mais velho, meu primeiro tolo sagrado desta saga de tolos. 'Preciso de estudar melhor a Cantora': eis a frase com que, desde sempre, em todas as eras, um certo tipo de homem anuncia que está perdido. Haverá, ao longo destes dez volumes, muitas variantes dela — “preciso interpretar melhor os sonhos dela” ...  “preciso de arquivar melhor os seus retratos" — e todas significarão o mesmo: a Ânsia vestiu finalmente um corpo, e o corpo, cavalheiresco e ridículo como convém, insiste em chamá-la objeto de estudo.

 

(Integração do Ensaio 1.5 — Oralidade → Textos Sagrados)

 

Aqui devo parar um instante — o leitor já conhece meu vício de parar, e lhe peço que o aceite como se aceita o passo lento de quem nos acompanha — para dizer uma coisa essencial sobre aquela cidade e sobre tudo o que lhe acontecerá.

Aquela gente não escrevia. Já o disse duas vezes, e não é por gosto de repetição que o digo a terceira: é porque nessa única escolha cabia inteira a sua grandeza e inteira a sua condenação. Tudo o que sabiam — a medicina das ervas e dos sons, os caminhos das estrelas, as decisões da justiça viva, as canções, os sonhos — tudo estava confiado à voz e à pedra que guarda a voz. Era um sistema perfeito, enquanto havia quem cantasse e quem escutasse. Mas tinha o ponto fraco de todas as coisas vivas: dependia de vivos. Um arquivo de papel arde, e é tragédia; um arquivo de vozes morre, e é outra coisa, para a qual não temos palavra, porque as nossas civilizações, escritas até ao tutano, já nem conseguem imaginá-la. Quando um povo de oralidade morre, não morre só a gente: morre o próprio passado da gente, que não deixou cópia. A memória, neles, era tecido vivo; e tecido vivo, ferido, não deixa documento — deixa cicatriz ou nada.

O leitor pergunta: e os cristais? Não eram eles o arquivo, a cópia, a salvação? 

Eram e não eram. Um cristal guardava a voz, sim — mas só devolvia a voz a quem sabia escutá-la, e escutar um cristal era uma arte que se aprendia em anos, de mão dada, de mestre para discípulo. Mortos os que sabiam escutar, os cristais tornavam-se o que hoje são, enterrados ou perdidos em cofres de museus e em lendas de livreiros: pedras bonitas. Mudas. Um cristal é como um livro fechado numa língua sem gramática publicada: guarda tudo e não diz nada. Eis a tragédia que já se aproxima, devagar, com paciência de maré: a cidade julgava ter vencido o esquecimento, e tinha apenas adiado o encontro com ele.

Nenhum povo acredita nisto a seu respeito, note-se. Todos os povos desta saga — a cidade de pedra e voz, o império dos escribas que vem a seguir, a biblioteca que arderá no quarto volume, os arquivos secretos do oitavo, a nuvem do décimo, essa sala de servidores onde os vossos netos julgarão guardar a eternidade — todos acreditam ter resolvido a morte com um bom sistema de arquivo. E todos, um a um, descobrirão que o arquivo guarda tudo menos o essencial, porque o essencial não se arquiva: transmite-se, de mão dada, de voz a voz, de corpo a corpo. Ou não se transmite.

Por isso este primeiro volume tinha de ser o deles: do Guardião e da Cantora. Porque ele é, desde o princípio, o partidário do arquivo — o homem que guarda — e ela é, desde o princípio, a partidária da transmissão — a mulher que semeia. E o que a cidade vai viver, e o que eles vão viver, e o que este livro inteiro vai viver, é a longa, longuíssima discussão entre estas duas lealdades, que são — o leitor ainda não sabe, mas eu sei, e não me perdoam se o calar — duas formas do mesmo amor.

 

A sede, entretanto, crescia.

Crescia na cidade inteira, embora ninguém a nomeasse assim. Era como se a Ânsia antiga, ao encontrar enfim dois corpos onde morar, tivesse aprendido o caminho e começado a visitar outros. Os sonhadores da cidade — e havia-os oficiais, gente paga para sonhar, imaginem que ofício — traziam agora sonhos todos do mesmo teor: sonhavam com água que subia, com uma luz que se apagava, com um homem e uma mulher que diziam adeus num lugar alto e não se tocavam. Acordavam envergonhados, porque sonhar despedidas era, naquela cidade alegre, quase uma falta de educação. Os navegadores astrais queixavam-se de que as estrelas, as suas velhas estrelas fiéis, pareciam afastar-se, como amigos que preparam uma viagem e ainda não avisaram. E a terra, que o Guardião escutava com o osso atrás do ouvido, como lhe tinham ensinado, fazia agora, à noite, um som novo: não o gemo terno de que falei, mas um ranger comprido, como o de uma corda esticada além da nota que devia dar.

O Guardião registou tudo. Era o seu ofício e era a sua natureza: diante do mistério, registar. Há nisto uma coragem que só parece cobardia a quem nunca amou um arquivo, e eu peço ao leitor que não se ria dele, porque todos nós, mais tarde ou mais cedo, somos o Guardião de alguma coisa: todos temos uma fileira funda onde escondemos o cristal que nos fala de outro lado.

Mas havia uma coisa que ele não conseguia registar, por mais que tentasse, e era precisamente a que mais importava. Acontecia sempre da mesma maneira: na sala grande, ao fim da tarde, quando a luz entrava de lado e fazia as fileiras de cristal arder por dentro como lenha fria, a Cantora cantava — e ele, em vez de escutar a canção, escutava a Cantora. Quero dizer: escutava aquilo que na voz dela não era voz, aquilo que na canção não era canção — uma presença por trás do som, como atrás de uma porta entreaberta há um quarto. E nesse instante, sempre nesse instante, a sede apertava-lhe o peito com tal força que as mãos lhe tremiam sobre o cristal e a gravação saía estragada, cheia de ruído, inútil.

Inútil para o arquivo. Que o leitor guarde este pormenor, porque ele volta: as melhores gravações da vida do Guardião, as que mais lhe importavam, saíram todas estragadas. Há uma lei secreta que governa esta saga que enuncio aqui pela primeira vez, sabendo que o leitor não me pode [ainda] crer: 'tudo que se registou bem, perdeu-se; tudo que sobreviveu, sobreviveu estragado, incompleto, por ouvir'². Mas isso, também, é matéria para os volumes que vêm.

Aconteceu então, numa dessas tardes — e com isto fecho esta primeira parte, porque o que aconteceu pertence já à segunda — aconteceu que a Cantora, a meio de uma canção, parou.

Nunca parava. Cantava as canções até ao fim, mesmo as difíceis, especialmente as de luto. Mas nessa tarde parou, a meio de uma frase, e ficou a olhar para ele — não para o cristal, não para as mãos dele sobre o cristal, mas para ele, para o sítio onde os olhos dum homem guardam aquilo que nem os arquivos mais fundos alcançam — e disse, com a simplicidade terrível de quem diz a verdade sem saber que ela é terrível:

— O senhor não me está a escutar a canção. O senhor está-me a escutar a mim.

E o Guardião, homem mais paciente da cidade, o homem que escutava pedras havia trinta anos e nunca tinha falhado uma gravação voluntária, sentiu que alguma coisa - dentro dele, fora dele, na cidade inteira, na terra debaixo da cidade, na Consciência antiga que sonhava tudo aquilo -- sentiu que alguma coisa, enfim, se rompia.

Não se rompeu ainda. A ruptura é o assunto da segunda parte deste volume, e eu não sou homem de roubar aos capítulos o que lhes pertence. Mas naquele instante, na sala grande, com a luz de lado e as pedras a arder por dentro e uma canção parada a meio como um barco parado a meio do rio, ouviu-se pela primeira vez - baixinho, ao longe, talvez na terra, talvez no peito dos dois, talvez no silêncio entre uma era e outra - o gemo.

O gemo primordial. Aquele de que falei no primeiro capítulo e de que, ingenuamente, o leitor julgou talvez que eu tivesse desistido.

A Ânsia tinha encontrado voz.

E quando a Ânsia encontra voz, o mundo — qualquer mundo, este nosso ou outro qualquer — tem de decidir, depressa e sem manual, o que fazer com ela.

 

Fim da Parte I

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