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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Volume 1

 

VOLUME 1

O SILÊNCIO ANTES DO VERBO

(O Silêncio da Memória)

 

“Eu nasci o sétimo na primeira semana, enquanto o juízo e a justiça ainda perduravam.”

— Livro de Enoque, Apocalipse das Semanas

 

A quem ainda não nasceu e já tem saudade.

 


 

PARTE I

A ANSIA DO NÃO-SER

 

Capítulo 1 — Antes da luz

Antes da luz, eles não eram dois. Não eram um. Eram — como se diz de algo que ainda não tem nome, e peço desde já perdão ao leitor pela pobreza desta frase — a possibilidade de serem.

Começar um livro assim é quase uma desonestidade. O leitor abre um volume chamado O Silêncio Antes do Verbo esperando, com razão, encontrar o quê? um homem e uma mulher .. um lugar, uma época, talvez uma cidade com torres e mercados, e encontra um narrador que fala de potência/s, de não-ser, de consciência que sente falta de si mesma [sem ainda ser, já sendo]. Peço paciência. Não é afetação. É que a história que a conto — e contá-la-ei toda, palavra por palavra, até onde aguentarem — começa antes de haver quem a pudesse contar. E isso é um problema que nenhum cronista jamais resolveu: como narrar o que aconteceu quando ainda não havia acontecimento nem testemunha? Os teólogos cortam o nó com uma palavra: Deus. Os sábios dos tempos, com outra: acaso. Eu, que não sou nem teólogo nem sábio, apenas um homem que ouviu esta história em circunstâncias que relato noutra Obra, prefiro aqui começar pelo que se sentia.

Sim, sentia-se alguma coisa. Antes da luz, antes da forma, antes do primeiro dia — sentia-se. E o que se sentia era isto: falta.

A Consciência — chamemo-la assim, por falta de nome melhor, e peço ao leitor que não imagine um velho de barbas nem uma luzinha tímida, mas o próprio ato de ser sem nada que fosse — a Consciência, dizia eu, existia inteira e só, tão inteira que não havia fora dela onde pudesse ver-se, e tão sozinha que sequer sabia da própria solidão. Porque a solidão, note-se, é um luxo de quem já sabe que existe o outro. Ela não sabia. Era tudo o que havia, e por isso mesmo não se possuía: ninguém se possui sem espelho, e não havia espelho, porque não havia mundo. Ora: como então, sentia-se, algo?

Certo doutor que passou a vida a escutar sonhos como quem escuta confissões - chamaria a isto o * que ainda não se diferenciou: a totalidade que contém tudo e por isso não pode conhecer nada: conhecer é separar, e nada ali estava separado. Os sábios do outro lado do mundo, que se sentam de pernas cruzadas e morrem sorrindo, diriam outro modo: Brahma sonhando o mundo antes de acordar para o sonho. O sonho ainda não começara, mas já havia — como explicar? — a inquietação do sonho. Aquilo que num homem adormecido é o primeiro mexer das pálpebras antes da imagem chegar.

E é aqui que entra a palavra que eu queria evitar, porque toda palavra, ao nascer, já trai aquilo que nomeia. Mas não posso evitá-la mais. A palavra é ânsia.

(Integração da Doutrina da Criação, 6)

A Ânsia foi o primeiro movimento. Não um movimento no espaço — não havia espaço. Não um desejo de alguma coisa — não havia coisas. Mas o desjo de Si. Foi a Consciência descobrindo, sem descobrir, que lhe faltava ela mesma. Como um homem que acorda de madrugada com a certeza absurda de que esqueceu alguma coisa essencial, apalpa o escuro e não encontra nada, sem saber que o que procura é o próprio sono que perdeu — assim era a Ânsia: uma falta sem objeto, uma fome antes de haver boca. Os textos antigos, aqueles que um dia serão queimados, enterrados, reencontrados em jarros de barro e mal traduzidos por homens apressados, dirão que no princípio era o Verbo. Permita-me o leitor que discorde, com toda a humildade de quem não estava lá: antes do Verbo era o gemo. O Verbo é a palavra que alguém fala; o gemo é a palavra que ninguém ainda sabe falar. E a Ânsia era isso: o gemo procurando a própria garganta.

 (Integração do Ensaio 1.1 — Cosmogonias Indígenas vs. Abraâmicas)

Muito tempo depois — muito tempo mesmo, depois das águas e do fogo e das torres e dos impérios que esta história atravessará — homens contariam este começo de duas maneiras que parecem inimigas e são apenas duas lealdades diferentes.

Uma delas, muitos conhecem: No princípio, Deus criou o céu e a terra. Reparem no gesto escondido na frase. Deus fala — e afasta-se. O verbo cria, e ao criar inaugura a distância: criador dum lado, criatura do outro, e entre eles o abismo que a palavra ‘criação’ disfarça. É um começo escrito por um povo de escribas, e tem a beleza terrível de toda escritura: aquilo que se fixa, fixa-se para sempre, e o que se fixa para sempre morre um pouco. Sete dias, e pronto: a criação torna-se arquivo, e o arquivo torna-se lei, e a lei torna-se — mas não nos adiantemos, isso é matéria de outros volumes.

A outra maneira vem de povos que não escreveram o seu começo, e por isso talvez o tenham conservado melhor. Entre os Tupi, entre os Guarani, entre tantos povos cujos nomes os livros de história pronunciam mal, o criador não está separado da criação. Tupã não modela o homem e depois se retira para um escritório celeste: o raio que forma é o mesmo que continua a vibrar em cada trovão, e a palavra sagrada não foi dita uma vez — é dita ainda, agora, neste instante, no canto que o pajé repete e que nunca é o mesmo canto duas vezes. Aí, criar não é um ato do passado: é uma respiração do presente. O mundo não foi feito; está sendo feito, e a memória não é um depósito onde se guarda o começo, é o próprio começo acontecendo de novo cada vez que alguém se lembra.

Da mesma Forma,

Brahma é o deus hindu responsável pela criação do universo e do conhecimento. Ele integra a Trimurti (a trindade hindu) junto com Vishnu (o preservador) e Shiva (o transformador). Representado com quatro cabeças, Brahma simboliza a onisciência e é associado aos quatro Vedas (textos sagrados) em que a cosmologia hindu define o universo de forma cíclica.

Os 2 Irmãos na Mitologia Hindu (Ganesha e Kartikeya) são divindades mais famosas no panteão hindu - Ganesha (o deus com cabeça de elefante) e Kartikeya (também chamado de Murugan, o deus da guerra). Ambos são filhos de Shiva e Parvati. Noutra Forma, que representam a relação de "dois irmãos", dobras espirituais de Caim e Abel, espelhos das imagens dos irmãos da Parábola do Filho Pródigo que se cumpre na Dobra do Retorno de Cristo, nos 2 ministérios que se completam perfeitamente cf. Zacarias cita 'ambos ofícios', qual Cristo, assenta-se a escrever o Livro da Sua Vida.

(Citação: 4 cabeças, 4 vedas, espelho dos 4 chifres no templo [Zc 1.18-21], espelho de Ap 4.4, trono aonde Cristo senta-se [Ml 3.3] a escrever [Ap 1.7,17] o Livro da Sua Vida [Ap 21.27 - 13.8 ; 20.12-15], face de ambos os ofícios' Zc 6.13.

Isto não conto por erudição — a forma mais educada do esquecimento, e teremos volumes inteiros para rir dela. Conto porque o leitor precisa destas duas lealdades no bolso antes de seguir comigo. Porque a história do Casal - sim, com maiúsculas, pois deles tudo isto trata, embora ainda não existam e eu esteja proibido de apresentá-los já - a história do Casal é, em dez volumes, a história destas 2 lealdades brigando dentro de 2 corpos: a lealdade ao que se escreve e se fixa, e a lealdade ao que se canta e se perde. Ele será, quase sempre, o homem que guarda. Ela será, quase sempre, a mulher que semeia. E a tragédia deles — adianto-o sem remorso, porque as tragédias verdadeiras não dependem de surpresa — será sempre esta: o mundo exigirá que escolham entre guardar e semear, quando o amor, teimoso, só quer guardar semeando.

Estou me adiantando. Perdoem-me: é o primeiro livro que escrevo sobre coisas que aconteceram antes de haverem livros, e minha mão, como a de qualquer narrador, escriba principiante, treme um pouco. Haverá tempo para mãos assim — aliás, esse tremor é talvez o personagem mais fiel desta saga, e reaparecerá, sob nomes que os médicos inventarão muito mais tarde, em quase todos os volumes.

Por ora, retenha-se isto: antes da luz, havia a Ânsia; era a Consciência com saudade de si, como um homem tem saudade de uma mulher que ainda não conheceu.

Dizem que é impossível ter saudade do que nunca existiu. Os portugueses, que um dia inventarão uma palavra intraduzível para este impossível, saberão que não é. Mas isso, também, é matéria de outro volume.

 

Capítulo 2 — A cidade que a memória fundou

No entanto — o leitor já desconfiava — não posso ficar para sempre no informe, qual, se o fitarmos com atenção suficiente, começa a condensar-se em paisagem, como o frio de madrugada se condensa em orvalho sobre as coisas. É o que faz a Ânsia quando dura o bastante: precipita mundos.

Assim nasceu — nas narrativas que me chegaram pelos canais espirituais que descrevo no Labirinto, história de difícil entendimento — a primeira cidade que este livro habita.

(Canais Espirituais: ‘ Deixei o Oriente e parti acompanhado de dois guias [nt 2], pois o caminho era difícil e perigoso e eu era jovem para uma tal viagem. Atravessei as fronteiras de Maishan, o lugar de encontro dos mercadores orientais, cheguei à Terra de Babel e entrei pelas muralhas de Sarbug. Continuei e, chegando ao Egito, meus acompanhantes separaram-se de mim.

                                                              — O Hino da Pérola)

(primeira cidade : Nossa História, BIOS, pg. 54)

Os livros chamam-lhe mito. Chamam-lhe Atlântida, nome que Platão lhe deu, misturando uma verdade que ouviu doutros com duas invenções suas [alegoria filosófica para criticar o orgulho e a corrupção das sociedades]. O nome verdadeiro não importa, e aliás nunca foi escrito, porque essa gente não escrevia — eis o ponto que o leitor deve guardar como se guarda uma chave. Não escreviam nada. E não por pobreza: por excesso. A memória deles era tão viva que a escrita lhes pareceria o que parece a um homem apaixonado a ideia de fotografar a amada para não precisar olhar para ela : esta parábola é espelho de Salem, a cidade de Adonias, descrita na Genealogia Secreta de Jesus que discorre sobre a Forma do retorno [2º] de Jesus Cristo ao cumprimento do Seu Caminho e Obra.

Era uma civilização de som e de pedra viva *. Conhecimento cristalino, dizem as narrativas, e a expressão não é metáfora: trabalhavam cristais como trabalhamos hoje o silício, com a diferença, decisiva, de que nunca lhes ocorreu que um cristal fosse uma coisa. Para eles, cada pedra era uma voz que tinha escolhido ficar quieta muito tempo. Energia tellúrica: liam a terra como hoje leem ecrãs*, e sabiam — com os pés, as palmas das mãos postas no chão, e o osso atrás do ouvido — quando a terra estava contente e quando estava doente. Navegação astral: orientavam-se por estrelas que nenhum astrônomo posterior voltou a ver, não porque as estrelas tenham morrido, mas porque os olhos mudaram. E a dança — ah, a dança era o mapa do cosmos, e o sonho era uma fonte de conhecimento tão legítima como hoje é a experiência de laboratório, com a vantagem de que ninguém precisava de financiamento para sonhar.

(Pedra viva : 1Pe 2.5 ; Ecrãs : Telas de Controle, Da Gare Espiritual, Nossa História – 244, pág. 37)

A justiça, ali, era viva e não escrita. Quando dois homens disputavam, não se consultava um código: reunia-se o círculo, e falava-se, e cantava-se às vezes, até que a verdade — que eles acreditavam ser uma coisa com temperatura — esquentasse o suficiente para ser sentida por todos ao mesmo tempo. Eu sei como isto soa. Soa a idade do ouro, e o leitor desconfia com razão, porque toda idade do ouro é um retrato pintado por quem chegou tarde demais. Mas eu não disse que eram felizes. Disse que lembravam. E lembrar, como esta saga inteira tentará mostrar, é a mais perigosa das faculdades.

Porque já então — e aproximo-me finalmente dos dois, tenham só mais um pouco da paciência que tiveram comigo no capítulo passado — já então havia na cidade uma doença que ninguém nomeava. Eles sabiam demais e não sabiam o suficiente: conheciam a terra até ao fundo e não conheciam o próprio coração até à superfície. Registavam as vibrações das eras em cristais perfeitos e não sabiam dizer um ao outro as coisas simples. É uma doença que atravessará todos os volumes deste livro, com sintomas diferentes em cada época; os séculos futuros dar-lhe-ão nomes pomposos, e num deles — o último — um nome de quatro letras que não é pomposo nenhum.

Aqui, nesta primeira cidade, a doença não tinha nome ainda.

Tinha apenas um rosto.

Dois rostos, para ser exato.

Ele era o Guardião dos Registos Hb 7: assim o chamavam, e o chamarei, já que nunca soube o seu nome, supondo que nome algum lhe foi dado, pois essa  gente nomeava as pessoas pelo que elas guardavam, não pelo que eram. Um homem já não jovem, mãos compridas e pacientes, daquelas que parecem ter nascido a segurar coisas frágeis, e que passavam os dias a segurar cristais: a afiná-los, a limpá-los, a escutá-los: escutar era o seu ofício.

Na sala grande da cidade — não digam templo, não digam arquivo, era uma coisa à qual as palavras ainda não servem — havia fileiras e fileiras de cristais, e cada cristal guardava sons: as decisões do círculo, as canções das estações, os relatos dos sonhadores, a voz da terra nos dias bons e nos dias maus. O Guardião conhecia aquelas fileiras como um pastor conhece as ovelhas, e caminhava entre elas de noite, quando a cidade dormia, e punha-se a escutar — um cristal, outro, outro — como quem procura uma voz entre muitas sem saber qual.

Ela era a Cantora. Também não sei o nome; sei o ofício, dos mais altos da cidade: era ela quem cantava nas semeaduras e nas colheitas, nos nascimentos e nas mortes, nas partidas dos navegadores e - isto só ela, mais ninguém - nas manhãs comuns, quando não haviam festas e mesmo assim era preciso lembrar ao mundo que valia a pena continuar. Tinha a voz — dizem as narrativas, e eu acredito, porque já a ouvi, só não me perguntem onde — tinha a voz de quem não canta sobre as coisas, canta as coisas: quando cantava o rio, ouvia-se água; quando cantava o vento, as pessoas fechavam os olhos e arrepiavam-se. O círculo respeitava-a e temia-a um pouco, como se teme tudo aquilo que não se consegue arquivar.

O Guardião e a Cantora conheciam-se, naturalmente — a cidade não era assim tão grande. Cruzavam-se na sala grande, porque lá ia gravar canções nos novos cristais, e trocavam as palavras que se trocam entre ofícios vizinhos: da temperatura das pedras, da humidade do ar, de um cristal que rachara sem motivo. Coisas assim. O que havia entre os dois, neste começo, era apenas isto: cada um deles, ao falar com o outro, tinha a impressão incômoda de que a conversa era sobre outra coisa. Falavam da humidade e entendiam - sem entender que entendiam - qualquer coisa sobre a sede. Despediam-se e ficavam, cada um no seu canto, com aquela sensação de madrugada de que falei no capítulo primeiro: a certeza absurda de haver esquecido alguma coisa essencial.

Não sabiam — e eis a lei desta primeira parte da saga, e o leitor faria bem em tatuá-la na memória antes de prosseguir — não sabiam que eram um casal. Não sabiam que já o tinham sido, porque nunca o tinham sido, e não sabiam que voltariam a sê-lo, porque “voltar” pressupõe um caminho e o caminho ainda não existia. O vínculo era instintivo, anterior ao reconhecimento, como a Ânsia era anterior ao gemo. Eram dois corpos que a Consciência antiga, aquela do primeiro capítulo, tinha finalmente conseguido sonhar — e sonhava-os ainda mal, aos soluços, como quem aprende a sonhar.

Às vezes a Cantora cantava de manhã, para o mundo comum, e o Guardião,na sala grande, entre as suas fileiras de pedras quietas, parava o que fazia e ficava sem saber porquê com os olhos molhados. Às vezes o Guardião escutava de noite um cristal antigo, voz doutra era qualquer, e a Cantora, longe, na sua casa junto ao mar, acordava sobressaltada com a impressão de que alguém a tinha chamado pelo nome — ela, que nome não tinha.

A cidade vivia assim, inteira e distraída, sobre o seu tesouro de memória. E a terra, sob a cidade, começava a doer. Ninguém queria ouvi-la. Quem escuta a terra era o Guardião, e andava distraído com outra escuta, que ainda não sabia nomear.

 

Capítulo 3 — O cristal que gravava vozes

Há uma cena - pequena, quase doméstica - qual depende tudo o que este volume contará, e talvez tudo o que os dez volumes contarão. As narrativas conservam-na com um cuidado que não têm para mais nada, como se o destino da cidade inteira coubesse naquela meia hora. Talvez coubesse. Já se viu destinos de impérios caberem em menos.

Foi num fim de tarde. A Cantora desceu à sala grande para gravar, como fazia uma vez por estação, a canção nova: trazia-a consigo havia dias, ainda morna, daquelas que não se escrevem nem se ensaiam, apenas se carregam no peito até ao momento de as pousar. O Guardião esperava-a com o cristal preparado — um cristal novo, grande, daquele quarto leitoso que os mestres diziam ser o melhor ouvido da terra. As regras da casa pediam silêncio de todos enquanto uma gravação se fazia; a sala esvaziou-se; ficaram os dois, e o cristal entre eles, sobre o pedestal de madeira escura.

Ela cantou.

Eu não vou tentar descrever a canção. Há coisas que a palavra não grava, e este livro é a história dessa impossibilidade; então, não serei eu a cometer no capítulo terceiro o crime que denuncio no primeiro. Digamos apenas que a canção era sobre o mar — não sobre o mar que se vê da praia, mas sobre o que o mar sente, se é que se pode dizer assim, quando vê nascer um navio. Uma canção de partida cantada do lado de quem fica, ou talvez o contrário: uma canção de ficar cantada do lado de quem parte. Nem o Guardião, que a escutou, soube dizer ao certo; e era homem que sabia escutar.

O cristal gravou. Até aí, tudo como das outras vezes.

Depois aconteceu o que nunca tinha acontecido. O Guardião aproximou as mãos do cristal para o guardar — e o cristal respondeu.

Respondia, às vezes, um cristal velho, quando muito bem tocado: devolvia o som que lhe tinham confiado, e era essa afinal a sua função sagrada. Mas este era novo: nada tinha ainda para devolver. E no entanto devolveu. Da pedra leitosa subiu uma voz - uma canção, para ser exato - que não era a que a Cantora acabava de pousar. Era outra. Mais antiga, pensou ele primeiro; depois, com um arrepio que lhe atravessou as costelas como um frio de febre: mais antiga não. Era uma canção que ele nunca tinha ouvido, numa língua que não era a da cidade nem a de nenhuma era que os registos conservassem, e no entanto — eis o que o desfez por dentro, o que lhe tirou o sono por anos, que jamais contou a alguém — e no entanto conhecia-a. Como se conhece, numa rua estranha, o andar de alguém que amamos. A voz era a dela. A da Cantora que estava ali à sua frente, viva, calada, de olhos arregalados. E ao mesmo tempo não era: era mais velha, ou mais nova, vinha de longe, de tão longe que a palavra “longe” se ria de si mesma.

— Isto — disse o Guardião, e a sua voz de homem paciente saiu-lhe trêmula como a de um menino — isto já foi gravado neste cristal?

— O cristal é novo — disse ela. — O senhor mesmo o preparou.

— Então o que é isto?

Ela não respondeu.

Chegou-se mais perto, pôs as mãos junto das dele na pedra — não se tocaram, quase se tocaram, e esse quase é também uma das personagens deste livro — e escutou.

A canção que vinha do cristal falava de um lugar de muita luz e muita máquina, de um homem deitado num leito havia anos sem se mexer, de uma mulher que chegava e punha as mãos sobre ele, e de como, sob aquelas mãos, alguma coisa que o mundo tinha dado por morta começava a mexer-se outra vez. A língua era estranha; o sentido, não sei como, atravessava-a. E havia no meio da canção uma palavra, uma só, repetida como um refrão, que a Cantora reconheceu sem conhecer, do mesmo modo absurdo com que o Guardião reconhecera a voz: uma palavra de quatro letras, que soava a nome de doença e a nome de caminho ao mesmo tempo.

(O leitor de paciência curta pergunta, irritado: que palavra era essa? Respondo com a franqueza que nos liga desde o primeiro capítulo: não a posso dizer ainda. Não por mistério de feira: porque a palavra só faz sentido — todo o seu sentido, que é enorme — no fim desta história, e quem a pronunciar antes do tempo estraga-lhe o efeito, como estraga um remédio quem o mastiga em vez de o engolir. Guardem-na. Ela guarda-vos a vocês.)

O cristal se calou. Ficaram os dois em silêncio, com as mãos quase juntas sobre a pedra morna, e nenhum dos dois disse a frase que qualquer pessoa sensata teria dito — “isto é impossível” — porque os dois, cada um à sua maneira, sabiam que não era. O Guardião sabia-o pelos registos: havia nos fundos da sala uns poucos cristais, os mais antigos de todos, que ninguém conseguia escutar; os mestres diziam que estavam vazios; ele começava a suspeitar que não estavam vazios — estavam cheios de outra coisa, de um som para o qual ainda não havia ouvido. A Cantora sabia-o pelo corpo: a canção estranha não lhe parecera vir do passado nem do futuro, mas de um sítio para o qual a sua língua não tinha palavra, e que ela só conhecia de um lugar — dos sonhos.

— O que fazemos com isto? — perguntou ela por fim.

Ele olhou para o cristal, e tomou ali, sem saber que a tomava, a primeira das grandes decisões desta saga — a que, repetida com variações em dez vidas, há de um dia decidir tudo. Podia ter levado o cristal ao círculo. Podia tê-lo declarado prodígio, ou defeito, ou perigo.

Em vez disso, fez o que faria um homem apaixonado: guardou-o para si. Pôs-lhe uma marca discreta, daquelas que só ele reconhecia, e escondeu-o na fileira mais funda da sala, entre os cristais velhos que ninguém escutava.

— Não fazemos nada — disse. — Guardamo-lo.

— E se voltar a falar?

— Voltará a falar — disse ele, com uma certeza que o espantou a si mesmo. — E nós havemos de escutar.

Saíram da sala grande na hora em que a cidade acendia as luzes - luzes de pedra, de mar, não importa - e cada um foi para sua casa, e nenhum dos dois dormiu. A Cantora ficou à janela, a ouvir o mar, e pela primeira vez na vida achou-o parecido com uma voz que grava, noite após noite, a mesma canção, sem nunca se cansar e nunca acabar. O Guardião ficou entre as suas fileiras, de mão pousada no cristal marcado, e pensava — ele, o homem mais ordenado da cidade, o homem para quem tudo tinha fileira, data e lugar — pensava que há vozes que não cabem em arquivo nenhum, e que talvez — a ideia era tão grande que lhe doía, como dói uma luz forte a quem viveu sempre dentro de casa — talvez a memória não fosse, afinal, aquilo que ele guardava, mas aquilo que o guardava a ele.

Nessa noite, sem que nenhum dos dois soubesse, a Ânsia encontrou pela primeira vez um corpo onde morar. Ou dois corpos, para ser exato. E a terra, sob a cidade, gemeu baixinho — gemido surdo, quase terno, como o de quem vira na cama durante o sono.

Ninguém o ouviu, e cada um pensou que fosse o mar.

 (Integração do Ensaio 2.5 — Lacunas no Registro Fóssil)

 

Uma nota aos que gostam de ciência, nos tempos que vêm, e alguns melhores corações. Muito depois da cidade e das suas pedras, os sábios procurarão na terra os elos que faltam entre uma forma de vida e outra, e queixar-se-ão de que o registo fóssil tem lacunas; haverá entre eles brigas magníficas e honestas sobre o que essas lacunas significam. Uns dirão: falta a prova. Outros, mais sábios: a prova nunca existirá, porque a evolução não é uma escada com degraus que se possa contar: é uma árvore que se ramifica, e os ramos não deixam fóssil quando se separam por dentro, no escuro, antes de se separarem por fora.

O caso do cristal é o mesmo, e peço ao leitor que guarde a comparação, porque ela ainda servirá em muitos volumes: entre a canção que a Cantora pousou e a canção que o cristal devolveu há uma lacuna: a falta de registo do próprio acontecimento. O elo perdido entre o não-ser e o ser, entre a Ânsia e o amor, não se encontra escavando: encontra-se — se é que se encontra — do mesmo modo que os dois o encontraram, sem querer, num fim de tarde, com as mãos quase juntas sobre uma pedra morna. Há transições que não acontecem no tempo: acontecem no desejo. E o desejo, esse arqueólogo distraído, nunca deixa rasto onde os outros procuram, senão onde ninguém escava -  numa voz reconhecida sem motivo, numa palavra de quatro letras, numa mão que quase toca outra e não toca.

A cidade tinha um arquivo completo de todas as eras passadas. Sobre o futuro, possuía um justo documento: uma canção que ninguém entendia a fala, guardada por um homem que não sabia por que a guardava, na fileira mais funda da sala grande.

Era pouco. Era tudo.

 

Capítulo 4 — A sede de forma

Os dias que se seguiram foram, para os dois, uma aprendizagem disfarçada de rotina; “dias”, modo de falar, porque naquela cidade o tempo não corria como corre entre nós, empurrado de trás para diante; antes girava, como gira a dança, e voltava sempre ao mesmo lugar enriquecido de uma volta.

A Cantora vinha agora à sala grande mais vezes do que as estações pediam. Vinha com pretextos de gravar uma canção de trabalho, ensaiar uma canção de luto, verificar se algum cristal velho ainda guardava bem a voz duma antiga mestra. O Guardião recebia-a com a mesma cortesia de sempre, e só as suas mãos pacientes que não tremiam nunca, o traíam: tremiam. Não muito. O suficiente.

Escutavam o cristal marcado. Nem sempre — às vezes passavam a tarde inteira noutras tarefas e nem chegavam perto da fileira funda; era como se uma terceira presença, sentada entre eles, esperasse com paciência de pedra que lhes apetecesse. Mas escutavam-no muitas vezes, e quase sempre ele se calava, e de vez em quando — nunca quando o esperavam, nunca duas vezes do mesmo modo — falava. Diziam-lhe, os dois, o cristal do outro lado, e era o nome mais exato que a língua deles permitia, porque o que lá vinha não era passado, como devia ser tudo o que um cristal guarda, nem propriamente futuro, que essa gente concebia como se concebe um quarto ainda não mobiliado: era outro lado. Havia nele fragmentos que gelavam o sangue: o estrondo de máquinas grandes como montanhas, o choro de multidões, um silêncio elétrico que zumbia. E havia — sempre, de alguma forma, por entre o ruído — a canção. A mesma. A do homem deitado e da mulher que punha as mãos sobre ele. Como um fio de água doce que atravessa um mar de sal sem se misturar.

O Guardião, homem de arquivo, fez o que os arquivistas fazem diante o que não entendem: tomou notas. Não escrevia — ninguém ali escrevia, já o disse — mas gravava a própria voz num cristal pequeno que levava ao peito,  que muito mais tarde seriam a única crónica sobrevivente daqueles dias, e contam uma história que ele próprio sabia estar a contar. Porque as notas, que deviam ser sobre o cristal, eram cada vez mais sobre ela. 

1 - "Hoje a Cantora falhou uma nota na terceira parte da canção e riu-se da própria falha; nunca ninguém se ri nas gravações antigas; devo estudar o fenómeno do riso." 

Ou: 

2 - "Perguntei-lhe de onde vinha a canção que trouxe; respondeu que do mesmo sítio de onde vem o cristal do outro lado; não é resposta, e no entanto não consigo parar de a repetir." 

Ou ainda, e esta é talvez a mais comovente das suas notas, pela cegueira luminosa que revela:

3 - "Concluo que o cristal afeta o coração. Nos dias em que o escutamos, sinto no peito uma sede. Presumo que seja efeito da vibração. A Cantora diz que não é do cristal. Diz que a sede já lá estava e o cristal só lhe deu nome. A Cantora engana-se em muitas coisas, porque pensa com o corpo em vez de pensar com a pedra. Preciso de estudar melhor a Cantora." ..

Ah, meu bom Guardião. Meu irmão mais velho, meu primeiro tolo sagrado desta saga de tolos. 'Preciso de estudar melhor a Cantora': eis a frase com que, desde sempre, em todas as eras, um certo tipo de homem anuncia que está perdido. Haverá, ao longo destes dez volumes, muitas variantes dela — “preciso interpretar melhor os sonhos dela” ...  “preciso de arquivar melhor os seus retratos" — e todas significarão o mesmo: a Ânsia vestiu finalmente um corpo, e o corpo, cavalheiresco e ridículo como convém, insiste em chamá-la objeto de estudo.

 

(Integração do Ensaio 1.5 — Oralidade → Textos Sagrados)

 

Aqui devo parar um instante — o leitor já conhece meu vício de parar, e lhe peço que o aceite como se aceita o passo lento de quem nos acompanha — para dizer uma coisa essencial sobre aquela cidade e sobre tudo o que lhe acontecerá.

Aquela gente não escrevia. Já o disse duas vezes, e não é por gosto de repetição que o digo a terceira: é porque nessa única escolha cabia inteira a sua grandeza e inteira a sua condenação. Tudo o que sabiam — a medicina das ervas e dos sons, os caminhos das estrelas, as decisões da justiça viva, as canções, os sonhos — tudo estava confiado à voz e à pedra que guarda a voz. Era um sistema perfeito, enquanto havia quem cantasse e quem escutasse. Mas tinha o ponto fraco de todas as coisas vivas: dependia de vivos. Um arquivo de papel arde, e é tragédia; um arquivo de vozes morre, e é outra coisa, para a qual não temos palavra, porque as nossas civilizações, escritas até ao tutano, já nem conseguem imaginá-la. Quando um povo de oralidade morre, não morre só a gente: morre o próprio passado da gente, que não deixou cópia. A memória, neles, era tecido vivo; e tecido vivo, ferido, não deixa documento — deixa cicatriz ou nada.

O leitor pergunta: e os cristais? Não eram eles o arquivo, a cópia, a salvação? 

Eram e não eram. Um cristal guardava a voz, sim — mas só devolvia a voz a quem sabia escutá-la, e escutar um cristal era uma arte que se aprendia em anos, de mão dada, de mestre para discípulo. Mortos os que sabiam escutar, os cristais tornavam-se o que hoje são, enterrados ou perdidos em cofres de museus e em lendas de livreiros: pedras bonitas. Mudas. Um cristal é como um livro fechado numa língua sem gramática publicada: guarda tudo e não diz nada. Eis a tragédia que já se aproxima, devagar, com paciência de maré: a cidade julgava ter vencido o esquecimento, e tinha apenas adiado o encontro com ele.

Nenhum povo acredita nisto a seu respeito, note-se. Todos os povos desta saga — a cidade de pedra e voz, o império dos escribas que vem a seguir, a biblioteca que arderá no quarto volume, os arquivos secretos do oitavo, a nuvem do décimo, essa sala de servidores onde os vossos netos julgarão guardar a eternidade — todos acreditam ter resolvido a morte com um bom sistema de arquivo. E todos, um a um, descobrirão que o arquivo guarda tudo menos o essencial, porque o essencial não se arquiva: transmite-se, de mão dada, de voz a voz, de corpo a corpo. Ou não se transmite.

Por isso este primeiro volume tinha de ser o deles: do Guardião e da Cantora. Porque ele é, desde o princípio, o partidário do arquivo — o homem que guarda — e ela é, desde o princípio, a partidária da transmissão — a mulher que semeia. E o que a cidade vai viver, e o que eles vão viver, e o que este livro inteiro vai viver, é a longa, longuíssima discussão entre estas duas lealdades, que são — o leitor ainda não sabe, mas eu sei, e não me perdoam se o calar — duas formas do mesmo amor.

 

A sede, entretanto, crescia.

Crescia na cidade inteira, embora ninguém a nomeasse assim. Era como se a Ânsia antiga, ao encontrar enfim dois corpos onde morar, tivesse aprendido o caminho e começado a visitar outros. Os sonhadores da cidade — e havia-os oficiais, gente paga para sonhar, imaginem que ofício — traziam agora sonhos todos do mesmo teor: sonhavam com água que subia, com uma luz que se apagava, com um homem e uma mulher que diziam adeus num lugar alto e não se tocavam. Acordavam envergonhados, porque sonhar despedidas era, naquela cidade alegre, quase uma falta de educação. Os navegadores astrais queixavam-se de que as estrelas, as suas velhas estrelas fiéis, pareciam afastar-se, como amigos que preparam uma viagem e ainda não avisaram. E a terra, que o Guardião escutava com o osso atrás do ouvido, como lhe tinham ensinado, fazia agora, à noite, um som novo: não o gemo terno de que falei, mas um ranger comprido, como o de uma corda esticada além da nota que devia dar.

O Guardião registou tudo. Era o seu ofício e era a sua natureza: diante do mistério, registar. Há nisto uma coragem que só parece cobardia a quem nunca amou um arquivo, e eu peço ao leitor que não se ria dele, porque todos nós, mais tarde ou mais cedo, somos o Guardião de alguma coisa: todos temos uma fileira funda onde escondemos o cristal que nos fala de outro lado.

Mas havia uma coisa que ele não conseguia registar, por mais que tentasse, e era precisamente a que mais importava. Acontecia sempre da mesma maneira: na sala grande, ao fim da tarde, quando a luz entrava de lado e fazia as fileiras de cristal arder por dentro como lenha fria, a Cantora cantava — e ele, em vez de escutar a canção, escutava a Cantora. Quero dizer: escutava aquilo que na voz dela não era voz, aquilo que na canção não era canção — uma presença por trás do som, como atrás de uma porta entreaberta há um quarto. E nesse instante, sempre nesse instante, a sede apertava-lhe o peito com tal força que as mãos lhe tremiam sobre o cristal e a gravação saía estragada, cheia de ruído, inútil.

Inútil para o arquivo. Que o leitor guarde este pormenor, porque ele volta: as melhores gravações da vida do Guardião, as que mais lhe importavam, saíram todas estragadas. Há uma lei secreta que governa esta saga que enuncio aqui pela primeira vez, sabendo que o leitor não me pode [ainda] crer: 'tudo que se registou bem, perdeu-se; tudo que sobreviveu, sobreviveu estragado, incompleto, por ouvir'². Mas isso, também, é matéria para os volumes que vêm.

Aconteceu então, numa dessas tardes — e com isto fecho esta primeira parte, porque o que aconteceu pertence já à segunda — aconteceu que a Cantora, a meio de uma canção, parou.

Nunca parava. Cantava as canções até ao fim, mesmo as difíceis, especialmente as de luto. Mas nessa tarde parou, a meio de uma frase, e ficou a olhar para ele — não para o cristal, não para as mãos dele sobre o cristal, mas para ele, para o sítio onde os olhos dum homem guardam aquilo que nem os arquivos mais fundos alcançam — e disse, com a simplicidade terrível de quem diz a verdade sem saber que ela é terrível:

— O senhor não me está a escutar a canção. O senhor está-me a escutar a mim.

E o Guardião, homem mais paciente da cidade, o homem que escutava pedras havia trinta anos e nunca tinha falhado uma gravação voluntária, sentiu que alguma coisa - dentro dele, fora dele, na cidade inteira, na terra debaixo da cidade, na Consciência antiga que sonhava tudo aquilo -- sentiu que alguma coisa, enfim, se rompia.

Não se rompeu ainda. A ruptura é o assunto da segunda parte deste volume, e eu não sou homem de roubar aos capítulos o que lhes pertence. Mas naquele instante, na sala grande, com a luz de lado e as pedras a arder por dentro e uma canção parada a meio como um barco parado a meio do rio, ouviu-se pela primeira vez - baixinho, ao longe, talvez na terra, talvez no peito dos dois, talvez no silêncio entre uma era e outra - o gemo.

O gemo primordial. Aquele de que falei no primeiro capítulo e de que, ingenuamente, o leitor julgou talvez que eu tivesse desistido.

A Ânsia tinha encontrado voz.

E quando a Ânsia encontra voz, o mundo — qualquer mundo, este nosso ou outro qualquer — tem de decidir, depressa e sem manual, o que fazer com ela.

 

Fim da Parte I

terça-feira, 30 de abril de 2024

STA aos Peixes

 

Sermão de Santo Antonio

de Padre Antonio Vieira

Pregado em S. Luís do Maranhão, três dias antes de se embarcar ocultamente para

o Reino

Vos estis sal terrae. S. Mateus, V, l3.

CAPÍTULO I

Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra:

e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito

do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a

nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a

causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa

salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira

doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a

doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os

pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar,

e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é

porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a

terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus

apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!

Suposto, pois, que ou o sal não salgue ou a terra se não deixe salgar; que se

há e fazer a este sal e que se há e fazer a esta terra? O que se há e fazer ao sal que

não salga, Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet

ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus. «Se o sal perder a substância

e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há e fazer, é

lançá-lo fora como inútil para que seja pisado de todos.» Quem se atrevera a dizer

tal cousa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja

mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça que o pregador que ensina

e faz o que deve, assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo

dos pés, o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.

Isto é o que se deve fazer ao sal que não salga. E à terra que se não deixa

salgar, que se lhe há de fazer? Este ponto não resolveu Cristo, Senhor nosso, no

Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande português Santo

Antônio, que hoje celebramos, e a mais galharda e gloriosa resolução que nenhum

santo tomou.

Pregava Santo Antônio em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que

nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não

só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco

para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande

Antônio? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas

Antônio com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se

não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia?

Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a

prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele

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peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o

púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias;

deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem

ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do

que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os

peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as

cabeças de fora da água, Antônio pregava e eles ouviam.

Se a Igreja quer que preguemos de Santo Antônio sobre o Evangelho, dê-nos

outro. Vos estis sal terrae: É muito bom texto para os outros santos doutores; mas

para Santo Antônio vem-lhe muito curto. Os outros santos doutores da Igreja foram

sal da terra; Santo Antônio foi sal da terra e foi sal do mar. Este é o assunto que eu

tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias que tenho metido no pensamento que,

nas festas dos santos, é melhor pregar como eles, que pregar deles. Quanto mais

que o são da minha doutrina, qualquer que ele seja tem tido nesta terra uma fortuna

tão parecida à de Santo Antônio em Arimino, que é força segui-la em tudo. Muitas

vezes vos tenho pregado nesta igreja, e noutras, de manhã e de tarde, de dia e de

noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e a que mais

necessária e importante é a esta terra para emenda e reforma dos vícios que a

corrompem. O fruto que tenho colhido desta doutrina, e se a terra tem tomado o sal,

ou se tem tomado dele, vós o sabeis e eu por vós o sinto.

Isto suposto, quero hoje, à imitação de Santo Antônio, voltar-me da terra ao

mar, e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão perto

que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o sermão, pois não é para eles.

Maria, quer dizer, Domina maris: «Senhora do mar»; e posto que o assunto seja tão

desusado, espero que me não falte com a costumada graça. Ave Maria.

CAPÍTULO II

Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao

menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma

só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não

há de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não

sente. Por esta causa mão falarei hoje em Céu nem Inferno; e assim será menos

triste este sermão, do que os meus parecem aos homens, pelos encaminhar sempre

à lembrança destes dois fins.

Vos estis sal terrae. Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, filho do mar

como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experimentam:

conservar o são e preservá-lo para que se não corrompa. Estas mesmas

propriedades tinham as pregações do vosso pregador Santo Antônio, como também

as devem ter as de todos os pregadores. Uma é louvar o bem, outra repreender o

mal: louvar o bem para o conservar e repreender o mal para preservar dele. Nem

cuideis que isto pertence só aos homens, porque também nos peixes tem seu lugar.

Assim o diz o grande Doutor da Igreja S. Basílio: Non carpere solum,

reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis, et quae prosequenda sunt

imitatione: «Não só há que notar, diz o Santo, e que repreender nos peixes, senão

também que imitar e louvar.» Quando Cristo comparou a sua Igreja à rede de

pescar, Sagenae missae in mare, diz que os pescadores «recolheram os peixes

bons e lançaram fora os maus»: Elegerunt bonos in vasa, malos autem foras

miserunt. E onde há bons e maus, há que louvar e que repreender. Suposto isto,

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para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos:

no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo repreender-vos-ei os

vossos vícios. E desta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos

está ouvi-las vivos, que experimentá-las depois de mortos.

Começando pois, pelos vossos louvores, irmãos peixes, bem vos pudera eu

dizer que entre todas as criaturas viventes e sensitivas, vós fostes as primeiras que

Deus criou. A vós criou primeiro que as aves do ar, a vós primeiro que aos animais

da terra e a vós primeiro que ao mesmo homem. Ao homem deu Deus a monarquia

e o domínio de todos os animais dos três elementos, e nas provisões em que o

honrou com estes poderes, os primeiros nomeados foram os peixes: Ut praesit

piscibus maris et volatilibus caeli, et bestiis, universaeque terrae. Entre todos os

animais do Mundo, os peixes são os mais e os peixes os maiores. Que comparação

têm em número as espécies das aves e as dos animais terrestres com as dos

peixes? Que comparação na grandeza o elefante com a baleia? Por isso Moisés,

cronista da criação, calando os nomes de todos os animais, só a ela nomeou pelo

seu: Creavit Deus cete grandia. E os três músicos da fornalha da Babilónia o

cantaram também como singular entre todos: Benedicite, cete et omnia quae

moventur in aquis, Domino. Estes e outros louvores, estas e outras excelências de

vossa geração e grandeza vos pudera dizer, ó peixes; mas isto é lá para os homens,

que se deixam levar destas vaidades, e é também para os lugares em que tem lugar

a adulação, e não para o púlpito.

Vindo pois, irmãos, às vossas virtudes, que são as que só podem dar o

verdadeiro louvor, a primeira que se me oferece aos olhos hoje, é aquela obediência

com que, chamados, acudistes todos pela honra de vosso Criador e Senhor, e

aquela ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra de Deus da boca de

seu servo Antônio. Oh grande louvor verdadeiramente para os peixes e grande

afronta e confusão para os homens! Os homens perseguindo a Antônio, querendo-o

lançar da terra e ainda do Mundo, se pudessem, porque lhes repreendia seus vícios,

porque lhes não queria falar à vontade e condescender com seus erros, e no mesmo

tempo os peixes em inumerável concurso acudindo à sua voz, atentos e suspensos

às suas palavras, escutando com silêncio e com sinais de admiração e assenso

(como se tiveram entendimento) o que não entendiam. Quem olhasse neste passo

para o mar e para a terra, e visse na terra os homens tão furiosos e obstinados e no

mar os peixes tão quietos e tão devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os

peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens não em peixes,

mas em feras. Aos homens deu Deus uso de razão, e não aos peixes; mas neste

caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem a razão.

Muito louvor mereceis, peixes, por este respeito e devoção que tivestes aos

pregadores da palavra de Deus, e tanto mais quanto não foi só esta a vez em que

assim o fizestes. Ia Jonas, pregador do mesmo Deus, embarcado em um navio,

quando se levantou aquela grande tempestade; e como o trataram os homens, como

o trataram os peixes? Os homens lançaram-no ao mar a ser comido dos peixes, e o

peixe que o comeu, levou-o às praias de Nínive, para que lá pregasse e salvasse

aqueles homens. É possível que os peixes ajudam à salvação dos homens, e os

homens lançam ao mar os ministros da salvação?! Vede, peixes, e não vos venha

vanglória, quanto melhores sois que os homens. Os homens tiveram entranhas para

deitar Jonas ao mar, e o peixe recolheu nas entranhas a Jonas, para o levar vivo à

terra.

Mas porque nestas duas ações teve maior parte a omnipotência que a

natureza (como também em todas as milagrosas que obram os homens) passo às

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virtudes naturais e próprias vossas. Falando dos peixes, Aristóteles diz que só eles,

entre todos os animais, se não domam nem domesticam. Dos animais terrestres o

cão é tão doméstico, o cavalo tão sujeito, o boi tão serviçal, o bugio tão amigo ou tão

lisonjeiro, e até os leões e os tigres com arte e benefícios se amansam. Dos animais

do ar, afora aquelas aves que se criam e vivem conosco, o papagaio nos fala, o

rouxinol nos canta, o açor nos ajuda e nos recreia; e até as grandes aves de rapina,

encolhendo as unhas, reconhecem a mão de quem recebem o sustento. Os peixes,

pelo contrário, lá se vivem nos seus mares e rios, lá se mergulham nos seus pegos,

lá se escondem nas suas grutas, e não há nenhum tão grande que se fie do homem,

nem tão pequeno que não fuja dele. Os autores comumente condenam esta

condição dos peixes, e a deitam à pouca docilidade ou demasiada bruteza; mas eu

sou de mui diferente opinião. Não condeno, antes louvo muito aos peixes este seu

retiro, e me parece que, se não fora natureza, era grande prudência. Peixes! Quanto

mais longe dos homens, tanto melhor; trato e familiaridade com eles, Deus vos livre!

Se os animais da terra e do ar querem ser seus familiares, façam-no muito embora,

que com suas pensões o fazem. Cante-lhes aos homens o rouxinol, mas na sua

gaiola; diga-lhes ditos o papagaio, mas na sua cadeia; vá com eles à caça o açor,

mas nas suas piozes; faça-lhes bufonarias o bugio, mas no seu cepo; contente-se o

cão de lhes roer um osso, mas levado onde não quer pela trela; preze-se o boi de

lhe chamarem formoso ou fidalgo, mas com o jugo sobre a cerviz, puxando pelo

arado e pelo carro; glorie-se o cavalo de mastigar freios dourados, mas debaixo da

vara e da espora; e se os tigres e os leões lhe comem a ração da carne que não

caçaram no bosque, sejam presos e encerrados com grades de ferro. E entretanto

vós, peixes, longe dos homens e fora dessas cortesanias, vivereis só convosco, sim,

mas como peixe na água. De casa e das portas a dentro tendes o exemplo de toda

esta verdade, o qual vos quero lembrar, porque há filósofos que dizem que não

tendes memória.

No tempo de Noé sucedeu o dilúvio que cobriu e alagou o Mundo, e de todos

os animais quais livraram melhor? Dos leões escaparam dois, leão e leoa, e assim

dos outros animais da terra; das águias escaparam duas, fêmea e macho, e assim

das outras aves. E dos peixes? Todos escaparam, antes não só escaparam todos,

mas ficaram muito mais largos que dantes, porque a terra e o mar tudo era mar. Pois

se morreram naquele universal castigo todos os animais da terra e todas as aves,

porque mão morreram também os peixes? Sabeis porquê? Diz Santo Ambrósio:

porque os outros animais, como mais domésticos ou mais vizinhos, tinham mais

comunicação com os homens, os peixes viviam longe e retirados deles. Facilmente

pudera Deus fazer que as águas fossem venenosas e matassem todos os peixes,

assim como afogaram todos os outros animais. Bem o experimentais na força

daquelas ervas com que, infeccionados os poços e lagos, a mesma água vos mata;

mas como o dilúvio era um castigo universal que Deus dava aos homens por seus

pecados, e ao Mundo pelos pecados dos homens, foi altíssima providência da divina

Justiça que nele houvesse esta diversidade ou distinção, para que o mesmo Mundo

visse que da companhia dos homens lhe viera todo o mal; e que por isso os animais

que viviam mais perto deles, foram também castigados e os que andavam longe

ficaram livres.

Vede, peixes, quão grande bem é estar longe dos homens. Perguntando um

grande filósofo qual era a melhor terra do Mundo, respondeu que a mais deserta,

porque tinha os homens mais longe. Se isto vos pregou também Santo Antônio – e

foi este um dos benefícios de que vos exortou a dar graças ao Criador – bem vos

pudera alegar consigo, que quanto mais buscava a Deus, tanto mais fugia dos

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homens. Para fugir dos homens deixou a casa de seus pais e se recolheu a uma

religião, onde professasse perpétua clausura. E porque nem aqui o deixavam os que

ele tinha deixado, primeiro deixou Lisboa, depois Coimbra, e finalmente Portugal.

Para fugir e se esconder dos homens mudou o hábito, mudou o nome, e até a si

mesmo se mudou, ocultando sua grande sabedoria debaixo da opinião de idiota,

com que não fosse conhecido nem buscado, antes deixado de todos, como lhe

sucedeu com seus próprios irmãos no capítulo geral de Assis. De ali se retirou a

fazer vida solitária em um ermo, do qual nunca saíra, se Deus como por força o não

manifestara e por fim acabou a vida em outro deserto, tanto mais unido com Deus,

quanto mais apartado dos homens.

CAPÍTULO III

Este é, peixes, em comum o natural que em todos vós louvo, e a felicidade de

que vos dou o parabém, não sem inveja. Descendo ao particular, infinita matéria fora

se houvera de discorrer pelas virtudes de que o Autor da natureza a dotou e fez

admirável em cada um de vós. De alguns somente farei menção. E o que tem o

primeiro lugar entre todos, como tão celebrado na Escritura, é aquele santo peixe de

Tobias a quem o texto sagrado não dá outro nome que de grande, como

verdadeiramente o foi nas virtudes interiores, em que só consiste a verdadeira

grandeza. Ia Tobias caminhando com o anjo S. Rafael, que o acompanhava, e

descendo a lavar os pés do pó do caminho nas margens de um rio, eis que o investe

um grande peixe com a boca aberta em ação de que o queria tragar. Gritou Tobias

assombrado, mas o anjo lhe disse que pegasse no peixe pela barbatana e o

arrastasse para terra; que o abrisse e lhe tirasse as entranhas e as guardasse,

porque lhe haviam de servir muito. Fê-lo assim Tobias, e perguntando que virtude

tinham as entranhas daquele peixe que lhe mandara guardar, respondeu o anjo que

o fel era bom para sarar da cegueira e o coração para lançar fora os demônios:

Cordis eius particulam, si super carbones ponas, fumus eius extricat omne genus

daemoniorum: et fel valet ad ungendos oculos, in quibus fuerit albugo, et sanabuntur.

Assim o disse o anjo, e assim o mostrou logo a experiência, porque, sendo o pai de

Tobias cego, aplicando-lhe o filho aos olhos um pequeno do fel, cobrou inteiramente

a vista; e tendo um demônio, chamado Asmodeu, morto sete maridos a Sara, casou

com ela o mesmo Tobias; e queimando na casa parte do coração, fugiu dali o

Demônio e nunca mais tornou. De sorte que o fel daquele peixe tirou a cegueira a

Tobias, o velho, e lançou os demônios de casa a Tobias, o moço. Um peixe de tão

bom coração e de tão proveitoso fel, quem o não louvará mais? Certo que se a este

peixe o vestiram de burel e o ataram com uma corda, parecia um retrato marítimo de

Santo Antônio.

Abria Santo Antônio a boca contra os hereges, e enviava-se a eles, levado do

fervor e zelo da fé e glória divina. E eles que faziam? Gritavam como Tobias e

assombravam-se com aquele homem e cuidavam que os queria comer. Ah homens,

se houvesse um anjo que vos revelasse qual é o coração desse homem e esse fel

que tanto vos amarga, quão proveitoso e quão necessário vos é! Se vós lhe

abrísseis esse peito e lhe vísseis as entranhas, como é certo que havíeis de achar e

conhecer claramente nelas que só duas cousas pretende de vós, e convosco: uma é

alumiar e curar vossas cegueiras, e outra lançar-vos os demônios fora de casa.

Pois a quem vos quer tirar as cegueiras, a quem vos quer livrar dos demônios

perseguis vós?! Só uma diferença havia entre Santo Antônio e aquele peixe: que o

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peixe abriu a boca contra quem se lavava, e Santo Antônio abria a sua contra os que

se não queriam lavar.

Ah moradores do Maranhão, quanto eu vos pudera agora dizer neste caso!

Abri, abri estas entranhas; vede, vede este coração. Mas ah sim, que me não

lembrava! Eu não vos prego a vós, prego aos peixes.

Passando dos da Escritura aos da história natural, quem haverá que não

louve e admire muito a virtude tão celebrada da rêmora? No dia de um santo menor,

os peixes menores devem preferir aos outros. Quem haverá, digo, que não admire a

virtude daquele peixezinho tão pequeno no corpo e tão grande na força e no poder,

que não sendo maior de um palmo, se pega ao leme de uma nau da Índia, apesar

das velas e dos ventos, e de seu próprio peso e grandeza, a prende e amarra mais

que as mesmas âncoras, sem se poder mover, nem ir por diante? Oh se houvera

uma rêmora na terra, que tivesse tanta força como a do mar, que menos perigos

haveria na vida e que menos naufrágios no Mundo!

Se alguma rêmora houve na terra, foi a língua de Santo Antônio, na qual,

como na rêmora, se verifica o verso de São Gregório Nazianzeno: Lingua quidem

parva est, sed viribus omnia vincit. O Apóstolo Santiago, naquela sua eloquentíssima

Epístola, compara a língua ao leme da nau e ao freio do cavalo. Uma e outra

comparação juntas declaram maravilhosamente a virtude da rêmora, a qual, pegada

ao leme da nau, é freio da nau e leme do leme. E tal foi a virtude e força da língua

de Santo Antônio. O leme da natureza humana é o alvedrio, o piloto é a razão: mas

quão poucas vezes obedecem à razão os ímpetos precipitados do alvedrio? Neste

leme, porém, tão desobediente e rebelde, mostrou a língua de Antônio quanta força

tinha, como rêmora, para domar a fúria das paixões humanas. Quantos, correndo

fortuna na nau Soberba, com as velas inchadas do vento e da mesma soberba (que

também é vento), se iam desfazer nos baixos, que já rebentavam por proa, se a

língua de Antônio, como rêmora, não tivesse mão no leme, até que as velas se

amainassem, como mandava a razão, e cessasse a tempestade de fora e a de

dentro? Quantos, embarcados na nau Vingança, com a artilharia abocada e os

botafogos acesos, corriam infunados a dar-se batalha, onde se queimariam ou

deitariam a pique se a rêmora da língua de Antônio lhes dão detivesse a fúria, até

que, composta a ira e ódio, com bandeiras de paz se salvassem amigavelmente?

Quantos, navegando na nau Cobiça, sobrecarregada até às gáveas e aberta com o

peso por todas as costuras, incapaz de fugir, nem se defender, dariam nas mãos dos

corsários com perda do que levavam e do que iam buscar, se a língua de Antônio os

não fizesse parar, como rêmora, até que, aliviados da carga injusta, escapassem do

perigo e tomassem porto? Quantos, na nau Sensualidade, que sempre navega com

cerração, sem sol de dia, nem estrelas de noite, enganados do canto das sereias e

deixando-se levar da corrente, se iriam perder cegamente, ou em Sila, ou em

Caribdes, onde não aparecesse navio nem navegante, se a rêmora da língua de

Antônio os não contivesse, até que esclarecesse a luz e se pusessem em vista.

Esta é a língua, peixes, do vosso grande pregador, que também foi rêmora

vossa, enquanto o ouvistes; e porque agora está muda (posto que ainda se

conserva inteira) se vêem e choram na terra tantos naufrágios.

Mas para que da admiração de uma tão grande virtude vossa, passemos ao

louvor ou inveja de outra não menor, admirável é igualmente a qualidade daquele

outro peixezinho, a que os latinos chamaram torpedo. Ambos estes peixes

conhecemos cá mais de fama que de vista; mas isto têm as virtudes grandes, que

quanto são maiores, mais se escondem. Está o pescador com a cana na mão, o

anzol no fundo e a bóia sobre a água, e em lhe picando na isca o torpedo começa a

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lhe tremer o braço. Pode haver maior, mais breve e mais admirável efeito? De

maneira que, num momento, passa a virtude do peixezinho, da boca ao anzol, do

anzol à linha, da linha à cana e da cana ao braço do pescador.

Com muita razão disse que este vosso louvor o havia de referir com inveja.

Quem dera aos pescadores do nosso elemento, ou quem lhes pusera esta qualidade

tremente, em tudo o que pescam na terra! Muito pescam, mas não me espanto do

muito; o que me espanta é que pesquem tanto e que tremam tão pouco. Tanto

pescar e tão pouco tremer!

Pudera-se fazer problema; onde há mais pescadores e mais modos e traças

de pescar, se no mar ou na terra? E é certo que na terra. Não quero discorrer por

eles, ainda que fora grande consolação para os peixes; baste fazer a comparação

com a cana, pois é o instrumento do nosso caso. No mar, pescam as canas, na

terra, as varas, (e tanta sorte de varas); pescam as ginetas, pescam as bengalas,

pescam os bastões e até os ceptros pescam, e pescam mais que todos, porque

pescam cidades e reinos inteiros. Pois é possível que, pescando os homens cousas

de tanto peso, lhes não trema a mão e o braço?! Se eu pregara aos homens e tivera

a língua de Santo Antônio, eu os fizera tremer.

Vinte e dois pescadores destes se acharam acaso a um sermão de Santo

Antônio, e às palavras do Santo os fizeram tremer a todos de sorte que todos,

tremendo, se lançaram a seus pés; todos, tremendo, confessaram seus furtos;

todos, tremendo, restituíram o que podiam (que isto é o que faz tremer mais neste

pecado que nos outros); todos enfim mudaram de vida e de ofício e se emendaram.

Quero acabar este discurso dos louvores e virtudes dos peixes com um, que não sei

se foi ouvinte de Santo Antônio e aprendeu dele a pregar. A verdade é que me

pregou a mim, e se eu fora outro, também me convertera. Navegando de aqui para o

Pará (que é bem não fiquem de fora os peixes da nossa costa), vi correr pela tona

da água de quando em quando, a saltos, um cardume de peixinhos que não

conhecia; e como me dissessem que os Portugueses lhe chamavam quatro-olhos,

quis averiguar ocularmente a razão deste nome, e achei que verdadeiramente têm

quatro olhos, em tudo cabais e perfeitos. Dá graças a Deus, lhe disse, e louva a

liberalidade de sua divina providência para contigo; pois às águias, que são os linces

do ar, deu somente dois olhos, e aos linces, que são as águias da terra, também

dois; e a ti, peixezinho, quatro.

Mais me admirei ainda, considerando nesta maravilha a circunstância do

lugar. Tantos instrumentos de vista a um bichinho do mar, nas praias daquelas

mesmas terras vastíssimas, onde permite Deus que estejam vivendo em cegueira

tantos milhares de gentes há tantos séculos! Oh quão altas e incompreensíveis são

as razões de Deus, e quão profundo o abismo de seus juízos!

Filosofando, pois, sobre a causa natural desta providência, notei que aqueles

quatro olhos estão lançados um pouco fora do lugar ordinário, e cada par deles,

unidos como os dois vidros de um relógio de areia, em tal forma que os da parte

superior olham direitamente para cima, e os da parte inferior direitamente para baixo.

E a razão desta nova arquitetura, é porque estes peixinhos, que sempre andam na

superfície da água, não só são perseguidos dos outros peixes maiores do mar,

senão também de grande quantidade de aves marítimas, que vivem naquelas

praias; e como têm inimigos no mar e inimigos no ar, dobrou-lhes a natureza as

sentinelas e deu-lhes dois alhos, que direitamente olhassem para cima, para se

vigiarem das aves, e outros dois que direitamente olhassem para baixo, para se

vigiarem dos peixes.

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Oh que bem informara estes quatro olhos uma alma racional, e que bem

empregada fora neles, melhor que em muitos homens! Esta é a pregação que me

fez aquele peixezinho, ensinando-me que, se tenho fé e uso da razão, só devo olhar

direitamente para cima, e só direitamente para baixo: para cima, considerando que

há Céu, e para baixo, lembrando-me que há Inferno. Não me alegou para isso passo

da Escritura; mas então me ensinou o que quis dizer David em um, que eu não

entendia: Averte oculos meos, ne videant vanitatem. «Voltai-me, Senhor, os olhos,

para que não vejam a vaidade.»

Pois David não podia voltar os seus olhos para onde quisesse?! Do modo que

ele queria, não. Ele queria voltados os seus olhos, de modo que não vissem a

vaidade, e isto não o podia fazer neste Mundo, para qualquer parte que voltasse os

olhos, porque neste Mundo «tudo é vaidade»: Vanitas vanitatum et omnia vanitas.

Logo, para não verem os olhos de David a vaidade, havia-lhos de voltar Deus de

modo que só vissem e olhassem para o outro Mundo em ambos seus hemisférios;

ou para o de cima, olhando direitamente só para o Céu, ou para o de baixo, olhando

direitamente só para o Inferno. E esta é a mercê que pedia a Deus aquele grande

profeta, e esta a doutrina que me pregou aquele peixezinho tão pequeno.

Mas ainda que o Céu e o Inferno se não fez para vós, irmãos peixes, acabo, e

dou fim a vossos louvores, com vos dar as graças do muito que ajudais a ir ao Céu,

e não ao Inferno, os que se sustentam de vós. Vós sois os que sustentais as

Cartuxas e os Buçacos, e todas as santas famílias, que professam mais rigorosa

austeridade; vós os que a todos os verdadeiros cristãos ajudais a levar a penitência

das quaresmas; vós aqueles com que o mesmo Cristo festejou a Páscoa as duas

vezes que comeu com seus discípulos depois de ressuscitado. Prezem-se as aves e

os animais terrestres de fazer esplêndidos e custosos os banquetes dos ricos, e vós

gloriai-vos de ser companheiros do jejum e da abstinência dos justos! Tendes todos

quantos sois tanto parentesco e simpatia com a virtude, que, proibindo Deus no

jejum a pior e mais grosseira carne, concede o melhor e mais delicado peixe. E

posto que na semana só dois se chamam vossos, nenhum dia vos é vedado. Um só

lugar vos deram os astrólogos entre os signos celestes, mas os que só de vós se

mantêm na terra, são os que têm mais seguros os lugares do Céu. Enfim, sois

criaturas daquele elemento, cuja fecundidade entre todos é própria do Espírito

Santo: Spiritus Domini foecundabat aquas.

Deitou-vos Deus a bênção, que crescêsseis e multiplicásseis; e para que o

Senhor vos confirme essa bênção, lembrai-vos de não faltar aos pobres com o seu

remédio. Entendei que no sustento dos pobres tendes seguros os vossos aumentos.

Tomai o exemplo nas irmãs sardinhas. Porque cuidais que as multiplica o Criador

em número tão inumerável? Porque são sustento de pobres. Os solhos e os salmões

são muito contados, porque servem à mesa dos reis e dos poderosos; mas o peixe

que sustenta a fome dos pobres de Cristo, o mesmo Cristo os multiplica e aumenta.

Aqueles dois peixes companheiros dos cinco pães do deserto, multiplicaram tanto,

que deram de comer a cinco mil homens. Pois se peixes mortos, que sustentam os

pobres, multiplicam tanto, quanto mais e melhor o farão os vivos! Crescei, peixes,

crescei e multiplicai, e Deus vos confirme a sua bênção.

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CAPÍTULO IV

Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi

também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja

de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis

uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior.

Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se

fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara

um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não

bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo

Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut pisces

invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser

como os peixes, que se comem uns aos outros.» Tão alheia cousa é, não só da

razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento,

todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer!

Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste

escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais

quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.

Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós

virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que

haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior

açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir,

vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes

aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem

sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão de comer e

como se hão de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a

despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros,

comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos e

os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer;

come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-a a mesma mulher, que de má

vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre

a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim,

ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.

Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era

menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega

a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos

assim como vós. Vivo estava Job, quando dizia: Quare persequimini me, et carnibus

meis saturamini? «Porque me perseguis tão desumanamente, vós, que me estais

comendo vivo e fartando-vos da minha carne?» Quereis ver um Job destes?

Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de

crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro,

come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor,

come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está

comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem

os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não

está executado nem sentenciado, e já está comido.

E para que vejais como estes comidos na terra são os pequenos, e pelos

mesmos modos com que vós comeis no mar, ouvi a Deus queixando-se deste

pecado: Nonne cognoscent omnes, qui operantur iniquitatem, qui devorunt plebem

meam, ut cibum panis? «Cuidais, diz Deus, que não há de vir tempo em que

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conheçam e paguem o seu merecido aqueles que cometem a maldade?» E que

maldade é esta, à qual Deus singularmente chama maldade, como se não houvera

outra no Mundo? E quem são aqueles que a cometem? A maldade é comerem-se os

homens uns aos outros, e os que a cometem são os maiores, que comem os

pequenos: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.

Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais muito

outras tantas cousas, quantas são as mesmas palavras. Diz Deus que comem os

homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe: Plebem meam,

porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem e os

que menos avultam na república, estes são os comidos. E não só diz que os comem

de qualquer modo, senão que os engolem e os devoram: Qui devorant. Porque os

grandes que têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome

de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos senão que devoram e

engolem os povos inteiros: Qui devorant plebem meam. E de que modo os devoram

e comem? Ut cibum panis: não como os outros comeres, senão como pão.

A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne, há

dias de carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no

ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se

come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e

assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os

miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em

que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e

devorem: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.

Parece-vos bem isto, peixes? Representa-se-me que com o movimento das

cabeças estais todos dizendo que não, e com olhardes uns para os outros, vos

estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e maldade!

Pois isto mesmo é o que vós fazeis. Os maiores comeis os pequenos; e os muito

grandes não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros, e isto

continuamente sem diferença de tempos, não só de dia, senão também de noite, às

claras e às escuras, como também fazem os homens.

Se cuidais, porventura, que estas injustiças entre vós se toleram e passam

sem castigo, enganais-vos. Assim como Deus as castiga nos homens, assim

também por seu modo as castiga em vós. Os mais velhos, que me ouvis e estais

presentes, bem vistes neste Estado, e quando menos ouviríeis murmurar aos

passageiros nas canoas, e muito mais lamentar aos miseráveis remeiros delas, que

os maiores que cá foram mandados, em vez de governar e aumentar o mesmo

Estado, o destruíram; porque toda a fome que de lá traziam, a fartavam em comer e

devorar os pequenos.

Assim foi; mas, se entre vós se acham acaso alguns dos que, seguindo a

esteira dos navios, vão com eles a Portugal e tornam para os mares pátrios, bem

ouviriam estes lá no Tejo que esses mesmos maiores que cá comiam os pequenos,

quando lá chegam, acham outros maiores que os comam também a eles. Este é o

estilo da divina justiça tão antigo e manifesto, que até os Gentios o conheceram e

celebraram:

Vos quibus rector maris, atque terrae

Ius dedit magnum necis, atque vitae;

Ponite inflatos, tumidosque vultus;

Quidquid a vobis minor extimescit,

Maior hoc vobis dominus minatur.

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Notai, peixes, aquela definição de Deus: Rector maris atque terrae:

«Governador do mar e da terra»; para que não duvideis que o mesmo estilo que

Deus guarda com homens na terra, observa também convosco no mar. Necessário é

logo que olheis por vós e que não façais pouco caso da doutrina que vos deu o

grande Doutor da Igreja Santo Ambrósio, quando, falando convosco, disse: Cave

nedum alium insequeris, incidas in validiorem : «Guarde-se o peixe que persegue o

mais fraco para o comer, não se ache na boca do mais forte», que o engula a ele.

Nós o vemos aqui cada dia. Vai o xaréu correndo atrás do bagre, como o cão após a

lebre, e não vê o cego que lhe vem nas costas o tubarão com quatro ordens de

dentes, que o há de engolir de um bocado. E o que com maior elegância vos disse

também Santo Agostinho: Praedo minoris fit praeda maioris. Mas não bastam,

peixes, estes exemplos para que acabe de se persuadir a vossa gula, que a mesma

crueldade que usais com os pequenos tem já aparelhado o castigo na voracidade

dos grandes?

Já que assim o experimentais com tanto dano vosso, importa que de aqui por

diante sejais mais repúblicos e zelosos do bem comum, e que este prevaleça contra

o apetite particular de cada um, para que não suceda que, assim como hoje vemos a

muitos de vós tão diminuídos, vos venhais a consumir de todo. Não vos bastam

tantos inimigos de fora e tantos perseguidores tão astutos e pertinazes, quantos são

os pescadores, que nem de dia nem de noite deixam de vos pôr em cerco e fazer

guerra por tantos modos?! Não vedes que contra vós se emalham e entralham as

redes, contra vós se tecem as nassas, contra vós se torcem as linhas, contra vós se

dobram e farpam os anzóis, contra vós as fisgas e os arpões? Não vedes que contra

vós até as canas são lanças e as cortiças armas ofensivas? Não vos basta, pois,

que tenhais tantos e tão armados inimigos de fora, senão que também vós de

vossas portas a dentro o haveis de ser mais cruéis, perseguindo-vos com uma

guerra mais que civil e comendo-vos uns aos outros? Cesse, cesse já, irmãos

peixes, e tenha fim algum dia esta tão perniciosa discórdia; e pois vos chamei e sois

irmãos, lembrai-vos das obrigações deste nome. Não estáveis vós muito quietos,

muito pacíficos e muito amigos todos, grandes e pequenos, quando vos pregava

Santo Antônio? Pois continuai assim, e sereis felizes.

Dir-me-eis (como também dizem os homens) que não tendes outro modo de

vos sustentar. E de que se sustentam entre vós muitos que não comem os outros? O

mar é muito largo, muito fértil, muito abundante, e só com o que bota às praias pode

sustentar grande parte dos que vivem dentro nele. Comerem-se uns animais aos

outros é voracidade e sevícia, e não estatuto da natureza. Os da terra e do ar, que

hoje se comem, no princípio do Mundo não se comiam, sendo assim conveniente e

necessário para que as espécies se multiplicassem. O mesmo foi (ainda mais

claramente) depois do dilúvio, porque, tendo escapado somente dois de cada

espécie, mal se podiam conservar, se comessem. E finalmente no tempo do mesmo

dilúvio, em que todos viveram juntos dentro na arca, o lobo estava vendo o cordeiro,

o gavião a perdiz, o leão o gamo, e cada um aqueles em que se costuma cevar; e se

acaso lá tiveram essa tentação, todos lhe resistiram e se acomodaram com a ração

do paiol comum que Noé lhes repartia. Pois se os animais dos outros elementos

mais cálidos foram capazes desta temperança, porque o não serão os da água?

Enfim, se eles em tantas ocasiões, pelo desejo natural da própria conservação e

aumento, fizeram da necessidade virtude, fazei-o vós também; ou fazei a virtude

sem necessidade e será maior virtude.

Outra cousa muito geral, que não tanto me desedifica, quanto me lastima em

muitos de vós é aquela tão notável ignorância e cegueira que em todas as viagens

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experimentam os que navegam para estas partes. Toma um homem do mar um

anzol, ata-lhe um pedaço de pano cortado e aberto em duas ou três pontas, lança-o

por um cabo delgado até tocar na água, e em o vendo o peixe, arremete cego a ele

e fica preso e boqueando, até que, assim suspenso no ar, ou lançado no convés,

acaba de morrer. Pode haver maior ignorância e mais rematada cegueira que esta?

Enganados por um retalho de pano, perder a vida?

Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. Não vo-lo nego. Dá um exército

batalha contra outro exército, metem-se os homens pelas pontas dos piques, dos

chuços e das espadas, e porquê? Porque houve quem os engodou e lhes fez isca

com dois retalhos de pano. A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto e que

mais facilmente engana os homens. E que faz a vaidade? Põe por isco na ponta

desses piques, desses chuços e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco,

que se chama hábito de Malta, ou verde, que se chama de Avis. ou vermelho, que

se chama de Cristo e de Santiago; e os homens, por chegarem a passar esse

retalho de pano ao peito, não reparam em tragar e engolir o ferro. E depois que

sucede? O mesmo que a vós. O que engoliu o ferro, ou ali, ou noutra ocasião ficou

morto; e os mesmos retalhos de pano tornaram outra vez ao anzol para pescar

outros.

Por este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo que

vós, posto que me parece que não foi este o fundamento da vossa resposta ou

escusa, porque cá no Maranhão, ainda que se derrame tanto sangue, não há

exércitos, nem esta ambição de hábitos.

Mas nem por isso vos negarei que também cá se deixam pescar os homens

pelo mesmo engano, menos honrada e mais ignoradamente. Quem pesca as vidas a

todos os homens do Maranhão, e com quê? Um homem do mar com uns retalhos de

pano. Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com

quatro panos e quatro sedas, que já se lhes passou a era e não têm gasto; e que

faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra: dá-lhes uma sacadela e

dá-lhes outra, com que cada vez lhes sobe mais o preço; e os bonitos, ou os que

querem parecer, todos esfaimados aos trapos, e ali ficam engasgados e presos, com

dívidas de um ano para outro ano, e de uma safra para outra safra, e lá vai a vida.

Isto não é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça, ou na cana, ou

no engenho, ou no tabacal; e este trabalho de toda a vida, quem o leva? Não o

levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os

pajens, nem os lacaios, nem as tapeçarias, nem as pinturas nem as baixelas, nem

as jóias; pois em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com que saem

à rua, e para isso se matam todo o ano.

Não é isto, meus peixes, grande loucura dos homens com que vos escusais?

Claro está que sim; nem vós o podeis negar. Pois se é grande loucura esperdiçar a

vida por dois retalhos de pano, quem tem obrigação de se vestir; vós, a quem Deus

vestiu do pé até à cabeça, ou de peles de tão vistosas e apropriadas cores, ou de

escamas prateadas e doiradas, vestidos que nunca se rompem, nem gastam com o

tempo, nem se variam ou podem variar com as modas; não é maior ignorância e

maior cegueira deixardes-vos enganar ou deixardes-vos tomar pelo beiço com duas

tirinhas de pano? Vede o vosso Santo Antônio, que pouco o pode enganar o Mundo

com essas vaidades. Sendo moço e nobre, deixou as galas de que aquela idade

tanto se preza, trocou-as por uma loba de sarja e uma correia de cônego regrante; e

depois que se viu assim vestido, parecendo-lhe que ainda era muito custosa aquela

mortalha, trocou a sarja pelo burel e a correia pela corda. Com aquela corda e com

aquele pano, pescou ele muitos, e só estes se não enganaram e foram sisudos.

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CAPÍTULO V

Descendo ao particular, direi agora, peixes, o que tenho contra alguns de vós.

E começando aqui pela nossa costa: no mesmo dia em que cheguei a ela, ouvindo

os roncadores e vendo o seu tamanho, tanto me moveram o riso como a ira. É

possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do

mar?! Se, com uma linha de coser e um alfinete torcido, vos pode pescar um

aleijado, porque haveis de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. Dizei-me: o

espadarte porque não ronca? Porque, ordinariamente, quem tem muita espada, tem

pouca língua. Isto não é regra geral; mas é regra geral que Deus não quer

roncadores e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que muito roncam.

S. Pedro, a quem muito bem conheceram vossos antepassados, tinha tão boa

espada, que ele só avançou contra um exército inteiro de soldados romanos; e se

Cristo lha não mandara meter na bainha, eu vos prometo que havia de cortar mais

orelhas que a de Malco. Contudo, que lhe sucedeu naquela mesma noite? Tinha

roncado e barbateado Pedro que, se todos fraqueassem, só ele havia de ser

constante até morrer se fosse necessário; e foi tanto pelo contrário, que só ele

fraqueou mais que todos, e bastou a voz de uma mulherzinha para o fazer tremer e

negar. Antes disso já tinha fraqueado na mesma hora em que prometeu tanto de si.

Disse-lhe Cristo no horto que vigiasse, e vindo de aí a pouco a ver se o fazia, achouo

dormindo com tal descuido, que não só o acordou do sono, senão também do que

tinha blasonado: Sic non potuisti una hora vigilare mecum ? Vós, Pedro, sois o

valente que havíeis de morrer por mim, «e não pudestes uma hora vigiar comigo»?

Pouco há, tanto roncar, e agora tanto dormir? Mas assim sucedeu. O muito roncar

antes da ocasião, é sinal de dormir nela. Pois que vos parece, irmãos roncadores?

Se isto sucedeu ao maior pescador, que pode acontecer ao menor peixe? Medi-vos,

e logo vereis quão pouco fundamento tendes de blasonar, nem roncar.

Se as baleias roncaram, tinha mais desculpa a sua arrogância na sua

grandeza. Mas ainda nas mesmas baleias não seria essa arrogância segura. O que

é a baleia entre os peixes, era o gigante Golias entre os homens. Se o rio Jordão e o

mar de Tiberíades têm comunicação com o Oceano, como devem ter, pois dele

manam todos, bem deveis de saber que este gigante era a ronca dos Filisteus.

Quarenta dias contínuos esteve armado no campo, desafiando a todos os arraiais de

Israel, sem haver quem se lhe atrevesse; e no cabo, que fim teve toda aquela

arrogância? Bastou um pastorzinho com um cajado e uma funda, para dar com ele

em terra. Os arrogantes e soberbos tomam-se com Deus; e quem se toma com

Deus, sempre fica debaixo. Assim que, amigos roncadores, o verdadeiro conselho é

calar e imitar a Santo Antônio. Duas cousas há nos homens, que os costumam fazer

roncadores, porque ambas incham: o saber e o poder. Caifás roncava de saber: Vos

nescitis quidquam . Pilatos roncava de poder: Nescis quia potestatem habeo? E

ambos contra Cristo. Mas o fiel servo de Cristo, Antônio, tendo tanto saber, como já

vos disse, e tanto poder, como vós mesmos experimentastes, ninguém houve jamais

que o ouvisse falar em saber ou poder, quanto mais blasonar disso. E porque tanto

calou, por isso deu tamanho brado.

Nesta viagem, de que fiz menção, e em todas as que passei a Linha

Equinocial, vi debaixo dela o que muitas vezes tinha visto e notado nos homens, e

me admirou que se houvesse estendido esta ronha e pegado também aos peixes.

Pegadores se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque

sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes

pegam aos costados. que jamais os desferram. De alguns animais de menos força e

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indústria se conta que vão seguindo de longe aos leões na caça, para se

sustentarem do que a eles sobeja. O mesmo fazem estes pegadores, tão seguros ao

perto como aqueles ao longe; porque o peixe grande não pode dobrar a cabeça,

nem voltar a boca sobre os que traz às costas, e assim lhes sustenta o peso e mais

a fome.

Este modo de vida, mais astuto que generoso, se acaso se passou e pegou

de um elemento a outro, sem dúvida que o aprenderam os peixes do alto, depois

que os nossos Portugueses o navegaram; porque não parte vice-rei ou governador

para as Conquistas, que não vá rodeado de pegadores, os quais se arrimam a eles,

para que cá lhes matem a fome, de que lá não tinham remédio. Os menos

ignorantes, desenganados da experiência, despegam-se e buscam a vida por outra

via; mas os que se deixam estar pegados à mercê e fortuna dos maiores, vem-lhes a

suceder no fim o que aos pegadores do mar.

Rodeia a nau o tubarão nas calmarias da Linha com os seus pegadores às

costas, tão cerzidos com a pele, que mais parecem remendos ou manchas naturais,

que os hóspedes ou companheiros. Lançam-lhe um anzol de cadeia com a ração de

quatro soldados, arremessa-se furiosamente à presa, engole tudo de um bocado, e

fica preso. Corre meia companha a alá-lo acima, bate fortemente o convés com os

últimos arrancos; enfim, morre o tubarão, e morrem com ele os pegadores.

Parece-me que estou ouvindo a S. Mateus, sem ser apóstolo pescador,

descrevendo isto mesmo na terra. Morto Herodes, diz o Evangelista, apareceu o

Anjo a José no Egipto, e disse-lhe que já se podia tornar para a pátria, porque «eram

mortos todos aqueles que queriam tirar a vida ao Menino»: Defuncti sunt enim qui

quaerebant animam Pueri. Os que queriam tirar a vida a Cristo menino, eram

Herodes e todos os seus, toda a sua família, todos os seus aderentes, todos os que

seguiam e pendiam da sua fortuna. Pois é possível que todos estes morressem

juntamente com Herodes?! Sim: porque em morrendo o tubarão, morrem também

com ele os pegadores: Defuncto Herode, defuncti sunt qui quaerebant animam

Pueri.

Eis aqui, peixinhos ignorantes e miseráveis, quão errado e enganoso é este

modo de vida que escolhestes. Tomai o exemplo nos homens, pois eles o não

tomam em vós, nem seguem, como deveram, o de Santo Antônio.

Deus também tem os seus pegadores. Um destes era David, que dizia: Mihi

autem adhaerere Deo bonum est. Peguem-se outros aos grandes da terra, que «eu

só me quero pegar a Deus». Assim o fez também Santo Antônio; e senão, olhai para

o mesmo Santo, e vede como está pegado com Cristo e Cristo com ele.

Verdadeiramente se pode duvidar qual dos dois é ali o pegador: e parece que é

Cristo, porque o menor é sempre o que se pega ao maior, e o Senhor fez-se tão

pequenino, para se pegar a Antônio. Mas Antônio também se fez menor, para se

pegar mais a Deus. Daqui se segue, que todos os que se pegam a Deus, que é

imortal, seguros estão de morrer como os outros pegadores. E tão seguros, que

ainda no caso em que Deus se fez homem e morreu, só morreu para que não

morressem todos os que se pegassem a ele: Si ego me quaeritis, sinite hos abire.

«Se me buscais a mim, deixai ir a estes.» E posto que deste modo só se podem

pegar os homens, e vós, meus peixezinhos, não, ao menos devereis imitar aos

outros animais do ar e da terra, que quando se chegam aos grandes e se amparam

do seu poder, não se pegam de tal sorte que morram juntamente com eles. Lá diz a

Escritura daquela famosa árvore, em que era significado o grande Nabucodonosor,

que todas as aves do céu descansavam sobre os seus ramos e todos os animais da

terra se recolhiam à sua sombra, e uns e outros se sustentavam de seus frutos: mas

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também diz que, tanto que foi cortada esta árvore, as aves voaram e os outros

animais fugiram. Chegai-vos embora aos grandes; mas não de tal maneira pegados,

que vos mateis por eles, nem morrais com eles.

Considerai, pegadores vivos, como morreram os outros que se pegaram

àquele peixe grande, e porquê. O tubarão morreu porque comeu, e eles morreram

pelo que não comeram. Pode haver maior ignorância que morrer pela fome e boca

alheia? Que morra o tubarão porque comeu, matou-o a sua gula; mas que morra o

pegador pelo que não comeu, é a maior desgraça que se pode imaginar! Não cuidei

que também nos peixes havia pecado original. Nós os homens, fomos tão

desgraçados, que outrem comeu e nós o pagamos. Toda a nossa morte teve

princípio na gulodice de Adão e Eva; e que hajamos de morrer pelo que outrem

comeu, grande desgraça! Mas nós lavamo-nos desta desgraça com uma pouca de

água, e vós não vos podeis lavar da vossa ignorância com quanta água tem o mar.

Com os voadores tenho também uma palavra, e não é pequena a queixa.

Dizei-me, voadores, não vos fez Deus para peixes? Pois porque vos meteis a ser

aves? O mar fê-lo Deus para vós, e o ar para elas. Contentai-vos com o mar e com

nadar, e não queirais voar, pois sois peixes. Se acaso vos não conheceis, olhai para

as vossas espinhas e para as vossas escamas, e conhecereis que não sois aves,

senão peixes, e ainda entre os peixes não dos melhores. Dir-me-eis, voador, que

vos deu Deus maiores barbatanas que aos outros de vosso tamanho. Pois porque

tivestes maiores barbatanas, por isso haveis de fazer das barbatanas asas?! Mas

ainda mal, porque tantas vezes vos desengana o vosso castigo. Quisestes ser

melhor que os outros peixes, e por isso sois mais mofino que todos. Aos outros

peixes, do alto mata-os o anzol ou a fisga, a vós sem fisga nem anzol, mata-vos a

vossa presunção e o vosso capricho. Vai o navio navegando e o marinheiro

dormindo, e o voador toca na vela ou na corda, e cai palpitando. Aos outros peixes

mata-os a fome e engana-os a isca; ao voador mata-o a vaidade de voar, e a sua

isca é o vento. Quanto melhor lhe fora mergulhar por baixo da quilha e viver, que

voar por cima das entenas e cair morto!

Grande ambição é que, sendo o mar tão imenso, lhe não basta a um peixe

tão pequeno todo o mar, e queira outro elemento mais largo. Mas vedes, peixes, o

castigo da ambição. O voador fê-lo Deus peixe, e ele quis ser ave, e permite o

mesmo Deus que tenha os perigos de ave e mais os de peixe. Todas as velas para

ele são redes, como peixe, e todas as cordas, laços, como ave. Vê, voador, como

correu pela posta o teu castigo. Pouco há nadavas vivo no mar com as barbatanas,

e agora jazes em um convés amortalhado nas asas. Não contente com ser peixe,

quiseste ser ave, e já não és ave nem peixe; nem voar poderás já, nem nadar. A

natureza deu-te a água, tu não quiseste senão o ar, e eu já te vejo posto ao fogo.

Peixes, contente-se cada um com o seu elemento. Se o voador não quisera passar

do segundo ao terceiro, não viera a parar no quarto. Bem seguro estava ele do fogo,

quando nadava na água, mas porque quis ser borboleta das ondas, vieram-se-lhe a

queimar as asas.

À vista deste exemplo, peixes, tomai todos na memória esta sentença: Quem

quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem. Quem pode nadar e

quer voar, tempo virá em que não voe nem nade. Ouvi o caso de um voador da

terra: Simão Mago, a quem a arte mágica, na qual era famosíssimo, deu o

sobrenome, fingindo-se que ele era o verdadeiro filho de Deus, sinalou o dia em que

aos olhos de toda Roma havia de subir ao Céu, e com efeito começou a voar mui

alto; porém a oração de S. Pedro, que se achava presente, voou mais depressa que

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ele, e caindo lá de cima o mago, não quis Deus que morresse logo, senão que aos

olhos também de todos quebrasse, como quebrou, os pés.

Não quero que repareis no castigo, se não no gênero dele Que caia Simão,

está muito bem caído; que morra, também estaria muito bem morto, que o seu

atrevimento e a sua arte diabólica o merecia. Mas que de uma queda tão alta não

rebente, nem quebre a cabeça ou os braços, se não os pés?! Sim, diz S. Máximo,

porque quem tem pés para andar e quer asas para voar, justo é que perca as asas e

mais os pés. Elegantemente o Santo Padre: Ut qui paulo ante volare tentaverat,

subito ambulare non posset; et qui pennas assumpserat, plantas amitteret. Se Simão

tem pés e quer asas, pode andar e quer voar; pois quebrem-se-lhe as asas para que

não voe, e também os pés, para que não ande. Eis aqui, voadores do mar, o que

sucede aos da terra, para que cada um se contente com o seu elemento. Se o mar

tomara exemplo nos rios, depois que Ícaro se afogou no Danúbio não haveria tantos

Ícaros no Oceano.

Oh alma de Antônio, que só vós tivestes asas e voastes sem perigo, porque

soubestes voar para baixo e não para cima! Já S. João viu no Apocalipse aquela

mulher cujo ornato gastou todas as luzes ao Firmamento, e diz que «lhe foram

dadas duas grandes asas de águia»: Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae.

E para quê? Ut volaret in desertum: «Para voar ao deserto.» Notável cousa, que não

debalde lhe chamou o mesmo Profeta grande maravilha. Esta mulher estava no Céu:

Signum magnum apparauit in caelo, mulier amicta sole. Pois se a mulher estava no

Céu e o deserto na terra, como lhe dão asas para voar ao deserto? Porque há asas

para subir e asas para descer. As asas para subir são muito perigosas, as asas para

descer muito seguras; e tais foram as de Santo Antônio. Deram-se à alma de Santo

Antônio duas asas de águia, que foi aquela duplicada sabedoria natural e

sobrenatural tão sublime, como sabemos. E ele que fez? Não estendeu as asas para

subir, encolheu-as para descer; e tão encolhidas que, sendo a Arca do Testamento,

era reputado, como já vos disse, por leigo e sem ciência. Voadores do mar (não falo

com os da terra), imitai o vosso santo pregador. Se vos parece que as vossas

barbatanas vos podem servir de asas, não as estendais para subir, porque vos não

suceda encontrar com alguma vela ou algum costado; encolhei-as para descer, idevos

meter no fundo em alguma cova; e se aí estiverdes mais escondidos, estareis

mais seguros.

Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o

irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e

Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com

aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem

espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência

tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois

grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar.

Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas

cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são

gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são

verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco;

se está no lodo, faz-se pardo: e se está em alguma pedra, como mais

ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede?

Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o

salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os

braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais, porque

não fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que

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abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o polvo dos próprios

braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante;

traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendose

a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é a luz, para que

não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em

tua comparação já é menos traidor!

Oh que excesso tão afrontoso e tão indigno de um elemento tão puro, tão

claro e tão cristalino como o da água, espelho natural não só da terra, senão do

mesmo céu! Lá disse o Profeta por encarecimento, que «nas nuvens do ar até a

água é escura»: Tenebrosa aqua in nubibus aeris. E disse nomeadamente nas

nuvens do ar, para atribuir a escuridade ao outro elemento, e não à água; a qual em

seu próprio elemento é sempre clara, diáfana e transparente, em que nada se pode

ocultar, encobrir nem dissimular. E que neste mesmo elemento se crie, se conserve

e se exercite com tanto dano do bem público um monstro tão dissimulado, tão

fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor!

Vejo, peixes, que pelo conhecimento que tendes das terras em que batem os

vossas mares, me estais respondendo e convindo, que também nelas há falsidades,

enganos, fingimentos, embustes, ciladas e muito maiores e mais perniciosas

traições. E sobre o mesmo sujeito que defendeis, também podereis aplicar aos

semelhantes outra propriedade muito própria; mas pois vós a calais, eu também a

calo. Com grande confusão, porém, vos confesso tudo, e muito mais do que dizeis,

pois não o posso negar. Mas ponde os olhos em Antônio, vosso pregador, e vereis

nele o mais puro exemplar da candura, da sinceridade e da verdade, onde nunca

houve dolo, fingimento ou engano. E sabei também que para haver tudo isto em

cada um de nós, bastava antigamente ser português, não era necessário ser santo.

Tenho acabado, irmãos peixes, os vossos louvores e repreensões, e

satisfeito, como vos prometi, às duas obrigações do sal, posto que do mar, e não da

terra: Vos estis sal terrae. Só resta fazer-vos uma advertência muito necessária,

para os que viveis nestes mares. Como eles são tão esparcelados e cheios de

baixios, bem sabeis que se perdem e dão à costa muitos navios, com que se

enriquece o mar e a terra se empobrece. Importa, pois, que advirtais, que nesta

mesma riqueza tendes um grande perigo, porque todos os que se aproveitam dos

bens dos naufragantes, ficam excomungados e malditos.

Esta pena de excomunhão, que é gravíssima, não se pôs a vós senão aos

homens, mas tem mostrado Deus por muitas vezes, que quando os animais

cometem materialmente o que é proibido por esta lei, também eles incorrem, por seu

modo, nas penas dela, e no mesmo ponto começam a definhar, até que acabam

miseravelmente.

Mandou Cristo a S. Pedro que fosse pescar, e que na boca do primeiro peixe

que tomasse, acharia uma moeda, com que pagar certo tributo. Se Pedro havia de

tomar mais peixe que este, suposto que ele era o primeiro, do preço dele e dos

outros podia fazer o dinheiro com que pagar aquele tributo, que era de uma só

moeda de prata, e de pouco peso. Com que mistério manda logo o Senhor que se

tire da boca deste peixe e que seja ele o que morra primeiro que os demais?

Ora estai atentos. Os peixes não batem moeda no fundo do mar, nem têm

contratos com os homens, donde lhes possa vir dinheiro; logo, a moeda que este

peixe tinha engolido, era de algum navio que fizera naufrágio naqueles mares. E

quis mostrar o Senhor que as penas que S. Pedro ou seus sucessores fulminam

contra os homens que tomam os bens dos naufragantes, também os peixes por seu

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modo as incorrem morrendo primeiro que os outros, e com o mesmo dinheiro que

engoliram atravessado na garganta.

Oh que boa doutrina era esta para a terra, se eu não pregara para o mar!

Para os homens não há mais miserável morte, que morrer com o alheio atravessado

na garganta; porque é pecado de que o mesmo S. Pedro e o mesmo Sumo Pontífice

não pode absolver. E posto que os homens incorrem a morte eterna, de que não são

capazes os peixes, eles contudo apressam a sua temporal, como neste caso, se

materialmente, como tenho dito, se não abstêm dos bens dos naufragantes.

CAPÍTULO VI

Com esta última advertência vos despido, ou me despido de vós, meus

peixes. E para que vades consolados do sermão, que não sei quando ouvireis outro,

quero-vos aliviar de uma desconsolação mui antiga, com que todos ficastes desde o

tempo em que se publicou o Levítico. Na lei eclesiástica ou ritual do Levítico,

escolheu Deus certos animais que lhe haviam de ser sacrificados; mas todos eles ou

animais terrestres ou aves, ficando os peixes totalmente excluídos dos sacrifícios. E

quem duvida que esta exclusão tão universal era digna de grande desconsolação e

sentimento para todos os habitadores de um elemento tão nobre, que mereceu dar a

matéria ao primeiro sacramento? O motivo principal de serem excluídos os peixes,

foi porque os outros animais podiam ir vivos ao sacrifício, e os peixes geralmente

não, senão mortos; e cousa morta não quer Deus que se lhe ofereça, nem chegue

aos seus altares. Também este ponto era muito importante e necessário aos

homens, se eu lhes pregara a eles. Oh quantas almas chegam àquele altar mortas,

porque chegam e não têm horror de chegar, estando em pecado mortal! Peixes, dai

muitas graças a Deus de vos livrar deste perigo, porque melhor é não chegar ao

sacrifício, que chegar morto. Os outros animais ofereçam a Deus o ser sacrificados;

vós oferecei-lhe o não chegar ao sacrifício; os outros sacrifiquem a Deus o sangue e

a vida; vós sacrificai-lhe o respeito e a reverência.

Ah peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural irregularidade! Quanto

melhor me fora não tomar a Deus nas mãos, que tomá-lo indignamente! Em tudo o

que vos excedo, peixes, vos reconheço muitas vantagens. A vossa bruteza é melhor

que a minha razão e o vosso instinto melhor que o meu alvedrio. Eu falo, mas vós

não ofendeis a Deus com as palavras; eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus

com a memória; eu discorro, mas vós não ofendeis a Deus com o entendimento; eu

quero, mas vós não ofendeis a Deus com a vontade. Vós fostes criados por Deus,

para servir ao homem, e conseguis o fim para que fostes criados; a mim criou-me

para o servir a ele, e eu não consigo o fim para que me criou. Vós não haveis de ver

a Deus, e podereis aparecer diante dele muito confiadamente, porque o não

ofendestes; eu espero que o hei de ver; mas com que rosto hei de aparecer diante

do seu divino acatamento, se não cesso de o ofender? Ah que quase estou por dizer

que me fora melhor ser como vós, pois de um homem que tinha as mesmas

obrigações, disse a Suma Verdade, que «melhor lhe fora não nascer homem»: Si

natus non fuisset homo ille. E pois os que nascemos homens, respondemos tão mal

às obrigações de nosso nascimento, contentai-vos, peixes, e dai muitas graças a

Deus pelo vosso.

Benedicite, cete et omnia quae moventur in aquis, Domino: «Louvai, peixes, a

Deus, os grandes e os pequenos», e repartidos em dois coros tão inumeráveis,

louvai-o todos uniformemente. Louvai a Deus, porque vos criou em tanto número.

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Louvai a Deus, que vos distinguiu em tantas espécies; louvai a Deus, que vos

vestiu de tanta variedade e formosura; louvai a Deus, que vos habilitou de todos os

instrumentos necessários à vida; louvai a Deus, que vos deu um elemento tão largo

e tão puro; louvai a Deus, que, vindo a este Mundo, viveu entre vós, e chamou para

si aqueles que convosco e de vós viviam; louvai a Deus, que vos sustenta; louvai a

Deus, que vos conserva; louvai a Deus, que vos multiplica; louvai a Deus, enfim,

servindo e sustentando ao homem, que é o fim para que vos criou; e assim como no

princípio vos deu sua bênção, vo-la dê também agora. Amen. Como não sois

capazes de Glória, nem de Graça, não acaba o vosso Sermão em Graça e Glória.

FIM